Melissa
estava um pouco perdida sem Ryan no ensaio da peça do colégio. Sem ele, as
coisas ficavam mais sem graça também. Apesar de estar levando bem mais a sério
a responsabilidade do que antes, ainda assim o
gentleman tinha cada ideia que era impossível não rir. A parte do Jesse era
tão tosca. Além disso, ele aceitava as ideias bobas de Melissa, mesmo que não
fossem entrar no corte final. A garota teve a ideia de fazer Bento Santiago
(Edward) pensar na Capitu (Cheryl) o traindo com Escobar (Sebastian), recriando
a cena do giro de Romeu e a mãe. É claro que eles não iriam colocar isso na
peça, afinal, muitos pais iriam sacar a referência incestuosa, mas era
engraçado fingir a possibilidade mesmo assim. Melissa suspirou, pensando no
quão chato o ensaio daquele dia seria. A maioria das pessoas levavam muito a
sério o papel e não tinha Ryan para trazer a leveza. Se bem... Se bem que isso
não a impedia de poder se divertir um pouco. A vida de Melissa era muito
parada. Ela não tinha namorado, irmãos, doenças mentais, nunca se envolveu em
polêmicas, não era popular, mas também não era excluída, seus pais se davam
bem, assim como toda a sua família e ela era amada por todos os familiares. Por
essa razão, a garota se entretinha pela vida dos outros. Leitora assídua do
blog, observava tudo e a todos, se divertindo com as aventuras dos que se
aventuravam, ficando angustiada com aqueles que sofriam, shippando os que se
amavam ou casais bonitos.

E
hoje era dia de shippar casais bonitos ou, pelo menos, composto por duas
pessoas visualmente bonitas. Hoje era dia de treinar a cena de beijo, decidiu.
“Edward
e Cheryl, cheguem aqui. Hoje, o Ry não pôde estar aqui, então eu serei a
responsável por ensaiar com vocês. Acho que seria legal a gente ver como vai
ser a cena de beijo, já que ela é importante para o andamento da história. É
quando o Bentinho realmente se apaixona por Capitu. Tudo bem pra vocês?”
“Ok”,
ambos concordaram.
“Um
beijo entre ingleses. Legal!”, pensou Melissa. “Bem, galera... quem quiser,
pode dar uma volta por uns minutos, porque eu vou ficar só com os dois no
momento. Depois ensaiamos outra cena.”
“Vamos
ensaiar hoje a minha maldição?”, perguntou Jesse.
“A
gente já ensaiou isso, Jesse. Já dissemos até que você não precisa vir a todos
os ensaios.”
“É
que eu gosto de ver como ta ficando.”
“Sem
problemas, Jesse. Pode vir. Só não vamos ensaiar a sua parte no momento.”
“Tudo
bem, tudo bem. Posso ficar aqui pra ver o beijo?”
“Galera,
acho melhor todo mundo dar uma volta e depois eu chamo todo mundo de volta pra
vocês verem o resultado e dizerem o que acharam, pode ser?”
“Ok”,
respondeu o pequeno coro de atores.
“Obrigada!”
Quando
Melissa se virou para olhar Edward e Cheryl, viu que eles estavam cochichando.
O que estariam falando? Ela queria ser uma mosquinha.
“Então,
gente, eu to com algumas dúvidas em relação ao beijo, até porque eu não sei
como vocês tem que ficar posicionados. A princípio, me parece que é um beijo a
la Peter Parker e Mary Jane, com as cabeças viradas de lados opostos, mas acho
que talvez não seja bem assim. Acho que a gente pode tentar dessa maneira e se
ficar esquisito, podemos fazer de outras. Vamos testando.”
Edward
e Cheryl se entreolharam com certo tipo de humor no olhar. “Eles sabem que eu
to de zoeira!”, pensou Melissa, querendo rir, mas permanecendo séria.
“Acho
que o beijo é desse jeito mesmo que você falou. A Capitu sentada na cadeira, ela
levanta a cabeça, e o Bentinho que está em pé, beija ela.”, falou Edward.
“É.
Acho que sim. Mas talvez um beijo assim fique feio. Vamos ver.", falou a menina resoluta. "A gente começa,
então, da parte do Bentinho fitando os olhos da Capitu para ver se ela tem
olhos de oblíqua dissimulada. Dá a sua fala, Edward.”
Os dois atores se posicionaram e começaram a ensaiar:
“Juro!
Deixe ver os olhos, Capitu.”
“Tinha-me
lembrado a definição que José Dias dera deles, ‘olhos de cigana oblíqua e
dissimulada’. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria
ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me
perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário. A demora
da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era
um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes,
enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e
sombrios, com tal expressão que... Retórica dos namorados, dá-me uma comparação
exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode
imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me
fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição
nova. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas,
aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as
pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando
envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os
relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. Ao cabo de um tempo
não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as
mãos, e disse-lhe – para dizer alguma cousa – que era capaz de os pentear, se
quisesse.”, leu Melissa a parte do narrador Dom Casmurro, enquanto Cheryl e
Edward atuavam conforme a longa narração. Em alguns momentos, a menina se deteve nos dois "atores" que, às vezes, pareciam estar rindo baixinho. Provavelmente, era algum exagero na atuação que acabava soando engraçado.
“Você?”,
continuou Cheryl como Capitu.
“Eu
mesmo.”
“Nossa”,
pensou Melissa, “essa Capitu ta tão Cheryl. Faltou a arqueada da sobrancelha.”
“Vai
embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.”
“Se
embaraçar, você desembaraça depois.”
“Vamos
ver.”

Cheryl
se sentou e Edward começou a tocar no cabelo de Cheryl. Melissa olhava vidrada
a cena, se imaginando no lugar da garota, só que o Bentinho era outro. O inglês
começou a pentear o belíssimo cabelo da georgie. Talvez a cena fosse longa
demais, mas Melissa realmente gostava de ver aquilo. A verdade é que a Cheryl
era tão bonita que ficava bonito ver ela contracenar com qualquer menino:
Sebastian, Edward, quem fosse. E ela era uma Capitu perfeita. Toda a áurea da
Capitu estava nela. Talvez os olhos não fossem de oblíqua e dissimulada, mas certamente
a aparente doçura (e, às vezes, malícia) escondia certa dissimulação. Outra
coisa que não se encaixava era o sotaque. Ambas personagens eram brasileiras,
porém eram interpretadas por dois estrangeiros, coincidentemente, ingleses. O
sotaque de Edward era quase imperceptível. O de Cheryl era forte. Entretanto, a
coisa estava tão perfeita, que o filho deles, Ezequiel, era interpretado por
Asa, também inglês. Claro, tinha a versão menor feita pelo Brian, mas ele quase
não tinha fala, então... Ryan e ela fizeram um trabalho excelente!
“Pronto!”
“Estará
bom?”
“Veja
no espelho.”
“Em
vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava
sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi
preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me
depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca
do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o
pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.”, leu
Melissa. Essa parte não seria narrada, apenas atuada, mas ela leu para que eles
fizessem exatamente o que estava escrito.
“Levanta,
Capitu!”
“Não
quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que
ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...”, falou Melissa de cor, enquanto
olhava atentamente para os dois se aproximando para o beijo.
Nossa,
que beijo lindo. A cena toda era lindíssima, na verdade. Melissa trocou de
posição, pois do ângulo em que estava, via mais a cabeça de Edward do que os
lábios se tocando. No canto, ela conseguia ver melhor. Não havia nada de
escandaloso no beijo. Na verdade, era bem comedido. Ainda assim, o modo como os
dois se moviam era visualmente agradável, bonito. A posição do beijo também era
bonita. Dava quase vontade de beijar os dois. A verdade é que Melissa queria um
beijo daquele jeito. Ela sentiu algo gostoso dentro dela, uma espécie de frio
na barriga, ou seriam borboletas no estômago? Era o mesmo sentimento de quando
você vê alguém que gosta inesperadamente. Por que ela sentia isso? Nem ela mesma
sabe. Ela só sabia que queria algo assim.

Para
não dizer que foi perfeito, Melissa sentiu a falta das línguas. Tudo que ela
via era lábios macios se movendo. Edward e Cheryl pararam de se beijar antes
que ela desse alguma direção para que parassem. Será que eles estavam
desnorteados com o beijo? Será que aqueles poucos segundos em que abriram os
olhos e viram um ao outro fez o coração deles bater rápido ou a pupila dilatar?
Ela não soube, porque tudo o que eles fizeram foi olhar para ela esperando
alguma resposta.
“Ficou
legal. Bem legal!”, disse, finalmente, Melissa. “Só não sei se funciona para o
telespectador. Quando eu tava vendo de frente, eu via mais a cabeça do Edward
do que qualquer outra coisa.”
“Acho
que pros pais fica melhor, não?”, argumentou Edward.
“Não
tem só o Bradley e a Jessica de pais no Cavalinho Feliz. Meus pais, por exemplo,
nem ligam. Nós somos jovens e jovens se beijam.”
Edward
segurava a cadeira em que Cheryl estava sentada, enquanto permanecia inclinado. Os dois, naquela exata posição, dariam uma foto bonita. Por que no Cavalinho Feliz eles não tinha anuário e um aluno
responsável por tirar foto dos alunos em diversos momentos, inclusive nos
ensaios das peças? Melissa anotou mentalmente a ideia para a próxima reunião do
grêmio.
“Acho
que seria legal a gente testar outra posição, até porque não fica muito claro
no romance se o beijo é desse jeito mesmo.”
Acontece
que Machado não havia deixado dúvidas. O beijo era de ponta cabeça, mas ela
queria testar outros jeitos, porque, ainda que não fosse ela e, no fundo, soubesse que
nem história daria, como infelizmente não deu no caso de Sebastian e Cheryl, observar
aquilo causava sensações boas nela. Ainda bem que Ryan não estava ali. Não que
ela fosse fazer algo. Ela nunca fazia algo em relação a nada. Ainda
assim...
“E
aí? Vamos de novo?”