sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

(Nice Dream)


Asa chegou em casa correndo e subiu diretamente para o seu quarto, sem falar direito com ninguém. Ele não conseguia parar de sorrir. Ele até tentou fincar seus lábios para baixo, mas rapidamente a tentativa de fazer uma cara triste se desfez para abrir lugar, mais uma vez, ao sorriso que não queria sair do seu rosto. Tentando liberar sua energia, comemorou o ocorrido mexendo os braços e dando um curto chute de felicidade. Vida longa ao cd The Bends do Radiohead, também conhecido como o melhor cd para amassos. Se ele tinha gostado do beijo que eles haviam dado na escola, imagina aquele dado no quarto dela, abençoado pelos pósteres colados na parede, inebriado pelo cheiro natural dela, naquele habitat que ele acreditava ter sido frequentado por poucos. E nossa, quanto tempo durou aquilo? O álbum tinha tocado praticamente todo. Ele sorriu de novo. O gosto do beijo continuava vívido na mente dele. Só de se lembrar do nervosismo que estava sentindo antes de ir para a casa dela, de fazer aquela proposta, da dúvida se deveria ou não levar o cd. Abençoado seja The Bends do Radiohead, melhor cd para amassos! As línguas deles pareciam que se movimentavam de acordo com o ritmo das músicas. Os lábios dela eram tão macios. Ela cheirava tão bem. Ela era tão bonita, tão legal, tão alternativa, tão abusada, tão criançona e, ao mesmo tempo, tão mulher. Ele, certamente poderia beijar ela por horas e horas.
"E ela não parou...", pensou Asa, sorrindo.
Quando perguntado sobre o sabor da tartelete, o garoto respondeu "duas de limões" e, sem perder tempo, abocanhou novamente a boca da garota, sem dar tempo dela dizer que já era o suficiente. Mas quando eles foram chamados para comer a tartelete, aí não tinha jeito. Bem, pelo menos, foi o que ele havia pensado, até ele subir de novo no quarto dela e não resistir. Foi direto para a cama da garota e voltou ao trabalho! Ela não negou, pelo contrário, aceitou bem. 


De repente, Asa se lembrou da parte em que o dente dos dois bateram e ele pediu, ao trocar de lado, desculpas. Ela só abriu um pequeno sorriso para ele, interrompido, rapidamente, pelo beijo que continuava. Que sorriso! E o nariz dela ficava tão bonito depois do beijo, tão vermelho, tão fofo. Ela era tão fofa, tão perfeita.
Como ele daria qualquer coisa para beijá-la de novo. Aquele provavelmente tinha sido o último beijo dos dois. Ele queria ter aproveitado mais, ter tido mais consciência sobre o beijo, durante o beijo. Os lábios dele começaram tão nervoso, tão tremidos e terminaram tão familiarizados, tão deslizantes. Ainda assim o beijo não era monótono. A cada momento ele se surpreendia, sentia sensações que até então nunca havia experimentado. Lembrou das mãos dele, uma posicionada no rosto dela e outra na cintura. Lembrou das mãos dela também. E quando começou a tocar...
Crystall entrou no quarto. Asa perguntou irritado:
"What you're doing here?"
"Esqueceu que eu to dormindo aqui agora? Eu hein! Você é muito mal humorado, sabia? Vai ser feliz!
O comentário da Crystall o fez rir, porque mal ela sabia que ele estava sentindo um nível de felicidade que ele não sentia há muito tempo. 
"Crystall, hoje, só hoje, eu te amo, ok?", ele deu um beijo no rosto da irmã.
"Eu hein! Ta doidinho mesmo. Eu também te amo! Agora sai da minha frente, que eu quero dormir!"
Asa abriu o caminho e deixou a irmã se deitar na cama dele. Aproveitou para se preparar para dormir. Quando chegou, Crystall já estava no quinto sono. Ele pegou seu walkman, seu cd do Radiohead, deitou no colchão inflável que sua mãe tinha acabado de comprar, e repassou novamente as lembranças, já mais vagas, na sua cabeça. Abençoado seja o álbum The Bends do Radiohead e os lábios de Rita juntos aos seus!

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

And breathe me

Era o aniversário de 15 anos de casados do casal Mark e Ceelia. Para comemorar o marco, os aniversariantes receberam os amigos num salão de um hotel cinco estrelas na Lagoa. Tudo estava perfeitamente organizado e impecável, com os mais lindos ornamentos no tom marsala.

Bradley estava vestindo um terno valentino na cor cinza escuro. Ele estava extremamente elegante, e um verdadeiro colírio para os olhos das solteiras e divorciadas do local. O professor distribuía seu charme para todos que chegavam nele para bater um papo. Ele estava gostando de toda aquela atenção e era bom saber que mesmo depois de de anos ele não perdera seu encanto.

Do outro lado do salão se encontrava Jessica. Ela havia ponderado bastante se iria ou não para aquela festa, pois sabia que seria perguntada sobre o casamento, e esse era o assunto do qual ela mais queria distância.

Ela não estava em seus melhores dias, o quase casamento, destruído pela traição de Júlio, detonou com toda a sua autoestima e esperança de um final feliz.

Na festa, as perguntas sobre o casamento foram quase inevitáveis, e suas respostas foram as mais simples possíveis, omitindo com veemência a traição do ex.

De longe, ela conseguia ver Bradley, ele estava de tirar o fôlego. Sempre que se dava conta, ela estava fitando-o de novo.

Ela via como as mulheres se atiravam para ele, e uma onda de ciúmes e possessividade tomava conta da advogada.

Em um determinado momento da festa, Bradley foi para a sacada, levando consigo, uma taça de espumante.

Aquela era a primeira vez que Bradley se encontrava sozinho a festa toda, e uma necessidade de ir até ele tomou conta da ruiva.

Ela pediu licença aos colegas e andou em direção à sacada. Bradley estava com os braços sobre o parapeito da sacada, observando a paisagem de modo pensativo. Jessica tirou alguns minutos para admirar a vista, mais especificamente, admirar Bradley. Era difícil de acreditar que ele já tinha sido seu, principalmente agora que ele estava mais distante do que nunca.

Um garçom ao passar por ela, esbarrou a bandeja nela, sem querer. O barulho da bandeja e do pedido de desculpas do garçom, fez o professor olhar para trás.

"Jessica, oi!" Ele abriu um sorriso genuíno ao vê-la.

"Oi." A ruiva disse timidamente da entrada.

"Eu nem vi você chegando."

"Eu cheguei faz algum tempo. Eu ia falar com você, mas você parecia muito ocupado com todas aquelas pessoas." Ela saiu da entrada. "Como você tá?" A ruiva perguntou cordialmente.

"Bem. Cheio de trabalho ultimamente, mas nada que eu possa reclamar. E você?"

"Bem também, e feliz pelo Mark e a Ceelia." Jessica deu seu melhor sorriso para reforçar a ideia de que estava feliz.

"Eu também. Em meio de tantos divórcios, é bom ver um casal que realmente deu certo."

"É sim." A ruiva concordou.

"Parece que eu não te vejo há séculos!" Bradley olhou a ex-mulher, como se para notar se havia alguma mudança física nela.

"É que você sumiu. Ta bem difícil falar com você ultimamente." O tom de Jessica não era acusador, mas mostrava um pouco de decepção.

"É como eu disse, eu to meio atolado com trabalho." O professor explicou. Ele colocou a taça de lado e se aproximou da ruiva. "Eu não te cumprimentei ainda." Ele, então, a abraçou.

Assim que os corpos se encontraram as narinas de Jessica foram inundadas pelo cheiro de Bradley. Ele não usava mais o mesmo perfume de quando eles eram casados, mas mesmo com a troca de colônia, a sua essência continuava intacta. Ela estava tão absorta nas sensações de estar novamente nos braços de Bradley que nem percebeu quando o professor os recolheu, ela então, se afastou meio sem graça.

"Você tem planos pro final de ano?" Bradley tentou criar conversa.

"Honestamente, eu não tenho nem planos pra amanhã. Eu to tentando viver um dia de cada vez."
Agora que Bradley reparou que a ex parecia exausta, como se não dormisse há dias.

"Eu te entendo. O que você passou não foi fácil." Bradley envolveu a mão dela nas suas, tentando mostrar empatia. Teve um momento que ele não conseguia ter esse tipo de contato com ela, mas a ausência da aliança do Júlio, tornava tudo mais lícito.
Jessica removeu sua mão rapidamente do aperto do professor.

"A vista daqui é linda." Ela mudou de assunto, e foi até o parapeito da sacada para contemplar mais de perto a paisagem.

"É realmente linda." Bradley chegou por detrás dela, dividindo a mesma visão com a ex-mulher.

"Eu ficaria o dia inteiro aqui olhando pra essa vista. A praia desse ângulo é algo surreal. Parece até que a gente tá mais perto de Deus." Jessica disse maravilhada.

"Lembrando que aqueles que moram na favela também estão perto de Deus, mesmo que a vista seja um pouco mais feia." Bradley brincou.

"Não começa." A ruiva revirou os olhos e riu.

"Não fui eu quem excluiu mais da metade da população brasileira do calor de Deus." Bradley olhou para ela de lado, e ela bateu nele com o cotovelo de brincadeira.

"Eu senti sua falta." Jessica revelou.

"Eu nem sumi por tanto tempo."

"Você tem razão. Eu é que to meio carente."

Bradley notou tristeza na voz da ruiva. Ele ponderou se havia sido insensível na sua resposta, afinal, ela havia admitido sentir sua falta e ele meio que banalizou.

"Eu tenho sentido sua falta por tanto tempo que eu acho que acabei me acostumando." Ele admitiu. "Mas eu também sinto a sua." Bradley virou o rosto para olhar para a ruiva.

Jessica, num movimento súbito e impensado, se aproximou para beijá-lo, porém o professor se afastou.


"Desculpa, eu não devia... desculpa." Jessica não sabia o que falar, apenas que estava morrendo de vergonha e que queria sair daquela festa o mais rápido possível.

"Jess, não foi nada! É que eu esqueci de mencionar que eu to saindo com alguém." Bradley confessou sem jeito, pegando a ruiva de surpresa.

"Ah, sério? Parabéns." Ela tentou dar o seu melhor sorriso falso.

"Não é nada sério ainda, mas eu não acho legal ficar com outras mulheres enquanto a gente ta saindo." O professor explicou, tentando contornar a situação.

"Claro, eu entendo perfeitamente." Aquela situação toda, fazia a simples tarefa de olhar pra Bradley, algo quase impossível. "Eu acho melhor eu voltar lá pra dentro. Boa noite."

Quando ela virou para sair de lá, Bradley a puxou de volta pelo braço.

"Ta tudo bem entre a gente?" Ele segurou sua mão e fechou seus dedos na sua, seus olhos indicando súplica.

"Sim, por que não estaria?" A advogada tentou fazer com que a pergunta dele fosse boba.

Ela tentou puxar a mão, porém o professor segurou-a com mais firmeza.

"Eu realmente tenho que ir." Ela tentou mais uma vez.

"Você se machucou?" Bradley olhou para o braço da ruiva que estava com algumas cicatrizes já bem claras na parte interna.

"Foi." Ela puxou novamente o braço, dessa vez com mais força, conseguindo desvencilhar-se do aperto do ex.

"Eu não acredito em você." Bradley falou sério.

"Que pena, porque é a verdade." Jessica retrucou friamente.

"Você e eu sabemos que não é. Eu não quero mais você morando sozinha." Bradley falou autoritário.

"E eu vou morar aonde? Eu não tenho ninguém! Além do mais, você não manda em mim." Ela falou com raiva.

"Você tem a mim!" Bradley quase gritou essa parte.

"Você? Eu mal te vejo ultimamente." Ela deu uma risada sarcástica.

"Vem morar comigo." Seu pedido saiu numa voz bastante grave.

As feições do rosto de Jessica suavizaram e sua guarda abaixou.

"Obrigada pela preocupação, mas eu to bem, de verdade! Isso foi só um momento estúpido onde eu não tava me sentindo muito bem. Agora eu to bem melhor, eu juro." Dessa vez foi a vez dela de segurar a mão dele, de forma a reforçar que estava dizendo a verdade.

"Melhor até quando? Jessica, eu não posso viver assim."

"Eu sei. Desculpa." A ruiva olhou para baixo se sentindo culpada e envergonhada.

"Ei, a gente vai resolver isso... juntos." Ele levantou o rosto dela com o dedo, balançando o queixo de forma carinhosa.

Ela assentiu.

Ele depois a envolveu num abraço demorado e beijou o topo da sua cabeça.

Até o fim da festa Bradley não saiu mais do lado da ex-mulher, ganhando muitos olhares desconfiados dos convidados. Jessica, por sua vez, estava se sentindo um fardo (Hello, Andrew 👋), porém aceitou a companhia do professor, pois sentiu que não estava em posição para contestar.

sábado, 9 de novembro de 2019

Happy Red-day!

E lá estava ela, sentada num banco de uma praça, não tão longe de casa, observando os pombos se movimentando e incomodando alguns pedestres. Se sentindo cansada e esgotada de tantas lágrimas que derramara naquela manhã.

A manhã de seu aniversário trazia consigo lágrimas e um vazio ainda maior que o normal. Seus pais fizeram uma ligação via skype a milhares de quilômetros de distância para lhe desejar parabéns.

De que valiam aquelas felicitações à distância, se ela não podia sentir o carinho e o calor das pessoas que ela mais amava no mundo?

Fora patético, mas ver os dois dentro de uma tela não grande o suficiente para poder se enxergar os detalhes de seus rostos, fez a menina começar a chorar. Lágrimas de extrema saudade que sentia de seus pais.

"Por que vocês tão demorando tanto pra voltar? Não me interessa comemorar nada sem vocês!" Emma disse num tom acusador que encheu o coração de seus pais de culpa e também um certo tipo de orgulho.

"Calma minha filha, a gente vai voltar pra casa o mais rápido possível. Só precisamos resolver uns assuntos finais. Agora, fecha os olhos e respira." Comandou seu pai, preocupado que sua filha fosse engasgar com as próprias lágrimas.

Emma obedeceu e logo abriu os olhos e tornou a fitá-los.

"Não deixe que a nossa ausência estrague seu dia, está bem, minha aurora?" Seu pai a chamava assim como referência aos seus cabelos naturalmente loiros que lembravam o reluzir do sol e a semelhança física que ela tinha com a princesa da Disney.

"Como se isso fosse fácil." Emma pensou de volta a realidade.



Voltando do mercado, Ed confiria se havia comprado tudo que estava na lista de compras. "Ovos - check, farinha - check, óleo - check, açúcar mascavo - check."

Ao atravessar a rua que dava em frente a pracinha ele avistou Emma, sentada no banco sozinha com um caderno na mão rabiscando alguma coisa concentrada. Ele não tinha intimidade nenhuma com ela, mas tinha recebido uma notificação do xiglute sobre seu aniversário, e indagou o que estaria ela, fazendo naquela praça sozinha. De alguma forma, ele achou sensato ir até ela e desejar feliz aniversário. Não custava nada e ela poderia apreciar o gesto.
O ruivo se aproximou um pouco sem jeito e acanhado.

"Oi, Emma."

Emma levantou seu olhar do caderno para o garoto sardento à sua frente. (Não que ela fosse menos diferente).

"Oi." Ela respondeu com a voz mais rouca que o normal, resultado da intensa crise de choro que tivera naquela manhã.

"É seu aniversário hoje, não é? Parabéns." Ed abriu os braços e ficou esperando ela se aproximar. Emma, finalmente entendeu a dica e colocou o caderno do lado e se levantou para receber seu abraço de aniversário. Ed cheirava a pantene, não era um cheiro ruim, só achava engraçado um homem que tinha esse cheiro.

O término do abraço foi tão awkward quanto o início do mesmo.

"E o que você ta fazendo sozinha?" Ed perguntou curioso, depositando as mãos no bolso da calça.

"Eu resolvi sair pra pegar um ar. Respirar um pouco, você sabe como o meu dindo é, ele pode ser um pouco sufocante." Emma se explicou, colocando as mãos sobre a testa para proteger os olhos da claridade do sol que vinha por trás de Ed.

"Eu imagino já a cena." Ele imaginou o tratamento de Bradley com a menina no aniversário e riu.

"É por aí mesmo que você deve ter imaginado." Emma também riu, porque apesar de sufocante, o gesto era fofo e realmente engraçado.

"E o que você tava desenhando? O lago?" Ele sabia que não era da sua conta, mas small talks não era seu forte.

Emma o olhou confusa, então Ed apontou para o lápis e o caderno que ainda estavam no banco. Ela olhou pra trás seguindo a direção de seu dedo, e entendeu ao que ele estava se referindo.

"Ah. Eu não estava desenhando. Quer dizer, mais ou menos. Eu tava traçando a estrutura química da Cobalamina."

Ed a olhou como se ela tivesse falado mandarim.



"Vitamina B12." Emma explicou.

"E por que você tava desenhando a fórmula da Cola..."

"Cobalamina" Emma o corrigiu, achando um pouco de graça.

"Isso."

"Porque é uma das minhas estruturas preferidas, eu amo as ligações triplas do carbono com o sulfato de nitrogênio e as pontes de oxigênio que ela tem na ramificação final. É a estrutura preferida do meu pai também."  Emma disse a última parte com certo pesar.

"Está tudo bem?" Ed perguntou sentindo que havia algo de errado com a menina.

"Sim, só com um pouco de saudade." Emma coçou levemente o nariz com as costas do dedo.

"Seus pais não estão aqui." Ed disse como finalmente tivesse se dando conta daquilo.

"Hun, hun." Emma balançou a cabeça. "Eles disseram que vão voltar em janeiro, então, nada deles no meu aniversário ou no natal." Emma falou sarcasticamente.

"Mas pelo menos você tem seus padrinhos." Ed tentou contornar a situação.

"É o que todo mundo diz. Eu amo eles, mas não são meus pais. De qualquer forma, eu não sei porque eu ainda coloco tanta expectativa neles, eu claramente não sou tão importante." Emma desabafou, a vida inteira, ela havia trocado pouquíssimas palavras com Ed, mas naquele momento, o ruivo parecia ser a pessoa perfeita para depositar suas frustrações.

"Impossível." Ed negou abrindo um sorriso amigável.

"Como?"

"Emma, você é a pessoa mais amada que eu conheço. É impossível que alguém não te ame, principalmente os seus pais." Ed explicou.



Emma o observou, instigada.

"O que foi?" Ed perguntou confuso e meio intimidado com o olhar da outra ruiva.

"Nada. O que é isso?" Emma perguntou se referindo ao saco de compras que ele estava segurando.

"Ah, isso? São umas coisas que minha mãe mandou comprar. Acontece que hoje não é só o seu aniversário, mas também o da minha tia, e minha mãe vai fazer cupcake de amêndoas com cobertura de butter cream pra festa." Ed explicou.

"Humm parece delicioso... Eu devo ta te atrasando, é melhor você voltar logo com as compras."

Ed olhou para o relógio e confirmou o que Emma falara.

"É, é melhor eu ir mesmo." O ruivo concordou.

"Deseja parabéns à sua tia por mim, quer dizer, é melhor não, ela nem sabe quem eu sou." Emma se corrigiu.

"Eu vou mandar o seu parabéns, e vou dizer que uma amiga desejou." Ed disse sensatamente.

"Ok." Emma concordou.

"É melhor você ir pra casa também. Não vai querer perder horas preciosas do seu aniversário nessa praça."

"Tem razão." Emma pegou o caderno e o lápis do banco e colocou dentro da sua bolsa. "Meu dindo vai me matar quando eu voltar, eu não avisei que ia sair."

"Você quer que eu te acompanhe e diga que foi minha culpa?" Ed não sabe poque ofereceu aquilo, quando ele percebeu já tinha saído da boca dele.

"Não precisa, eu me entendo com ele depois. E você também tem que ir pra casa, pra sua mãe poder começar a fazer os cupcakes."

"Verdade. Então, até segunda." Ed deu outro abraço na aniversariante.

"Até." Ela respondeu ao desvencilhar-se do ruivo.



Segunda-feira, na escola, Ed levou um cupcake que sua mãe tinha feito para Emma.





domingo, 1 de setembro de 2019

Replacement

O que ele mais temia havia chegado na sua casa como uma tempestade num dia até então perfeito de verão. Um envelope com uma fita em dourado o convidava para seu mais obscuro pesadelo.

" Júlio César Maidden Hardy 
   &
  Jessica Michele Chastain

Convidam para a cerimônia de casamento a realizar-se dia
                                                 06/01/2020"

Como ela conseguia seguir adiante com a ideia de casar com outro homem? Como ela podia ser mulher de outro quando ela pertencia a ele? Afinal, eles juraram diante de Deus e mais 300 pessoas que iriam se amar e cuidar um do outro até a morte. 
Aquele convite era a confirmação que para ela, seus votos foram meras palavras ditas ao vento sem o menor valor. Uma facada no estômago doeria menos do que ver sua mulher se casando com outro.
O convite continha outros cinco individuais, um para ele mesmo e os outros para Emma, Brian, Andréia e Bryce.
Sem pensar duas vezes, Bradley rasgou aquele papel maldito em mil pedacinhos. Ele não ia comparecer àquele teatro e muito menos o seu filho.
Depois Bradley pegou as chaves do carro, checou se as crianças estavam dormindo e dirigiu até a casa da pessoa que ele acreditava que ajudaria a amenizar a dor que estava sentindo.

O professor estacionou na esquina da casa dela. Ele tirou o celular do bolso e discou seu número, ignorando o fato de ser mais de 2 horas da manhã. 

"Alô." Respondeu uma voz com sono. 

"Oi. Hãã, desculpa te acordar, mas é que eu preciso falar com você." Bradley falou meio enrolado. 

"Ta tudo bem?" A pessoa respondeu demonstrando preocupação na voz além do cansaço. 

"Mais ou menos, eu posso te ver?" O professor perguntou ansioso. 

"Como assim me ver? Ta tarde Bradley." Ela olhou o relógio para confirmar o que havia dito.

"Vai ser um segundo, eu to em frente à sua casa." Bradley explicou. 

"O quê? Você ta louco?" Ela tentou controlar a voz e foi até a janela, confirmando a presença do professor ali. 

Ele acenou quando viu a figura dela na janela. 

"Desce logo." Bradley disse impaciente pelo telefone. 

"Eu te odeio." Ela desligou o telefone. Depois colocou um casaco e saiu. 

Bradley estava com cara de enterro e com os olhos vermelhos. 

"Você ta bem?" Ela perguntou preocupada. 

Bradley abraçou a menina deixando a cabeça cair em seu ombro. 

"Não." Ele respondeu com as primeiras lágrimas deixando seus olhos. 

"O que aconteceu?" Ela perguntou confusa. 

"Ela vai se casar com outro." Ele disse sem vida. 

"E qual a novidade?"

"Eu acabei de receber o convite." Bradley explicou. 

"Oh. Você sabia que isso ia acontecer." Ela falou calma, ainda com o professor nos braços. 

"Não que ia doer tanto.... Eu amo ela." Ele admitiu. 

"Eu sei." Jennifer compreensiva. 

Bradley tirou a cabeça do ombro da Jennifer e finalmente olhou para ela. Em seguida ele segurou o rosto dela e a beijou. 
A menina apesar de surpresa retribuiu o beijo do professor. Eles se beijaram até que o beijo naturalmente chegou ao seu final. 

"Eu vou voltar pra dentro." Jennifer informou quando os lábios se partiram. 

"Não. Fica mais um pouco. Eu preciso de você." Bradley alisou o braço dela. 

"Eu já dormi tarde estudando pra prova que eu vou ter amanhã, se eu não voltar agora, eu vou acabar dormindo na prova."

"Eu posso desmarcar essa prova. É de quê?" Bradley tentou barganhar. 

"Não, Bradley. Eu estudei e quero fazer a prova. Eu sinto muito que a sua ex-mulher vai se casar com outro. Mas você não pode aparecer na minha casa de madrugada esperando que eu largue tudo porque você não consegue lidar com isso. Desculpa, mas você ta querendo demais."

"Eu sei, desculpa." Bradley concordou envergonhado." 

Jennifer o olhou meio culpada. "Amanhã a gente conversa, o que acha?" Jennifer disse menos ríspida do que antes. 

"Ok." Bradley aceitou se sentindo derrotado. 

"Daqui direto pra casa." Ela o advertiu. Depois de um beijo no rosto dele e foi para dentro. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Baby, come back to me

Joe e Margot estavam dando uns amassos no sofá da casa dele, quando a campainha tocou.

"Deve ser a pizza."

"O que eu quero comer é outra coisa.", disse Margot com um sorriso malicioso.


Ele sorriu de volta um pouco sem graça e foi atender a porta. Para a sua surpresa, era Taylor com lágrimas nos olhos.

"Volta pra mim, por favor. Eu preciso de você."

Ele olhou assustado para ela, depois olhou para trás e gritou:

"Já volto!"

Joe fechou a porta atrás dele e perguntou preocupado:

"O que houve? Aconteceu alguma coisa?"

"Meu tio. Ele ta doente...", ela mal conseguiu responder.

"Taylor... Eu não sei o que dizer."

Os dois se abraçaram e ela disse de olhos fechados:

"Eu preciso de você, Joe. Eu não vou conseguir enfrentar isso sozinha. Eu não queria fazer isso. Você sabe que eu sou muito orgulhosa. Mas acontece que eu te amo mais do que o meu próprio orgulho."

"Taylor..." Ele desfez o abraço e colocou as mãos no ombro dela, "eu nunca te trai, você precisa acreditar em mim. Eu nunca beijei a Margot enquanto eu estava com você."

"Eu não sei.", Taylor olhou para baixo.

"Você sabe, Taylor. Você sabe. Eu nunca faria isso com você."

"Então volta pra mim."


Ele olhou para ela indeciso. Taylor tinha os seus defeitos, claro, mas era uma mulher incrível. Carinhosa, sempre presente, não importava a situação, fofa, engraçada, sexy. Ele secou uma lágrima do rosto dela e disse triste:

"Eu não posso."

"Eu não acredito que você vai jogar tudo o que a gente teve por causa da Margot. Ela nem gosta de você. Ela só queria um homem, não importa qual fosse. Como o Wade não quis, ela foi pra cima de você."

"Não fala assim dela."

"Eu falo dessa piranha como eu quiser! Ela roubou você de mim!"

"Taylor, olha pra mim. Olha pra mim. Eu realmente sinto muito sobre o seu tio e no que você precisar, eu estarei aqui por você, de verdade, mas dessa vez como amigo. Não importa o término, nem nada. O carinho e o amor que eu sinto por você são o mesmo."

"Eu não acredito que eu vim aqui fazer papel de boba de novo. Seja feliz com a Margot. Espero que ela te faça feliz."

"Taylor, não vai embora assim. Por favor!"

Mas Taylor foi. Ele a viu desaparecer e, então, entrou em casa. Margot, que havia visto toda aquela cena patética por detrás das cortinas, correu rapidamente para o sofá e fingiu que estava no celular.

"O que foi? Quem era?"

"Era a Taylor."

"E o que ela queria?"

"Ela pediu pra gente voltar. Disse que o tio ta doente.", respondeu Joe, que sabia que Margot havia espiado tudo.

"Nossa, o tio dela ta doente e ela vem fazer chantagem emocional pra você voltar com ela? Gente, a Taylor é perturbada."

"Acho que ela ta se sentindo sozinha. Não é fácil lidar com doença na família.", o loiro falou soturno. 

"Bem, de qualquer forma, a Taylor é muito dramática. Ela sabe fazer uma cena."

"O tio dela ta doente, Margot!"

"Eu sei! Mas o que você pode fazer?"

Ele ficou quieto e sentou. A verdade é que ele ainda se preocupava com Taylor e a achava muito frágil para lidar com todas essas coisas sozinha. Margot, então, se sentou no colo dele, virada para ele.

"Desculpa! Eu não quero parecer insensível, mas é que acabou que eu escutei tudo e achei que ela jogou muito sujo falando do Wade. Não foi nada daquilo que ela disse. Você sabe que eu só tenho olhos pra você.", a loira falou, fazendo carinho no cabelo do namorado.


"Eu sei!", ele botou os braços em volta da cintura de Margot.

Os dois, então, começaram a se beijar carinhosamente, enquanto, não muito longe dali, vagava uma Taylor solitária e chorosa pela noite. 

Até que a morte nos separe


Antonella acordou atordoada. Ela olhou o relógio. Já eram 3h da manhã. Meu Deus, ela havia dormido muito. O que aconteceu com as crianças? E a Joy? Ela desceu rapidamente as escadas e deu de cara com uma figura de costas, sentada no sofá, assistindo tv e dando de mamar para o seu bebê. Ela conhecia bem aquela figura mesmo de costas. Era Andrew. Ela esfregou os olhos para ver se estava enxergando bem. Andrew continua lá, sem se dar conta da presença dela. Ele resmungava bem baixinho para o nenê, inconformado de que Michael havia ganhado uma rosa de Lorene. Antonella, tentando entender tudo aquilo, se lembrou, de repente, de que realmente o ex-marido estava lá. John havia viajado à negócios, deixando ela sozinha com as crianças. Não tinha ninguém para ajudá-la. Sua irmã e cunhada já haviam voltado para a Itália e Reino Unido, respectivamente. Ela estava virada praticamente por duas noites, pois Joy ficava acordada a madrugada inteira e quando finalmente a menina dormia lá pelas 6h da manhã, Asa e Crystall estavam prestes a se levantarem. Vendo que a mãe não estava conseguindo dar conta de tudo aquilo sozinha, depois do ataque que ela deu no café da manhã com os dois, só porque ela pisou numa peça de lego no corredor, Asa decidiu chamar o pai para ajudar nas coisas. Ao chegar, Andrew encontrou Antonella meio acordada, meio dormindo, secando os pratos. Ele direcionou ela para cama, que o seguiu sem reclamar, e desde então, passou o resto do dia lá, repondo as energias.
Depois de colocá-la na cama, Andrew assumiu todas as tarefas da casa, além de ter uma conversa com as duas crianças sobre a importância delas começarem a ajudar a mãe em algumas atividades do lar, já que a mesma estava muito sobrecarregada. Ele fez as compras, preparou almoço, lanche e jantar, arrumou a bagunça da casa junto com Asa e Crystall, brincou com eles, ajudou nas lições escolares, como pode, e às 18h começou a cuidar também de Joy, que acordou. Enquanto isso, Antonella dormia pesadamente, sem acordar com um barulho sequer. 
Embora tudo isso pudesse ser deduzido só pelo horário, Antonella não refletia em nada daquilo. Ela só olhava aquela cena: seu ex-marido segurando a filha que ela teve com outro, alimentando aquela menina, brincando com ela. Parecia que o tempo tinha voltado uns 8 anos. Ela já havia encontrado ele naquela mesma situação, só que com Asa, filho dele. Ela ficou paralisada olhando tudo aquilo não se sabe por quanto tempo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Tell me the truth

Bradley e Jessica estavam no cartório resolvendo algumas pendências que foram deixadas sobre o divórcio.

"Com licença doutora, a senhora se importa em aguardar alguns minutos até a chegada do senhor Magnum?" A estagiária perguntou se sentindo intimidada pela presença dos dois.

"Eu aguardo até 10, caso ele não chegue a tempo, a gente deixa pra outro dia."

Jessica odiava quando as pessoas não chegavam no horário porque ela sempre dava seu máximo para comparecer aos eventos em ponto e ela esperava o mesmo das pessoas.

"Sim senhora." A estagiária sorriu sem graça e voltou para detrás do balcão.

"Inacreditável." Jessica reclamou com raiva.

"Calma Jess, eu honestamente não tenho nada pra fazer depois daqui." Bradley disse relaxado. Ele cruzou a perna e esticou o braço na cadeira ao lado, onde estava sentada sua ex.

"Você talvez, mas eu to cheia de trabalho me esperando em casa." Jessica olhou novamente o relógio.

Bradley não respondeu. Ele não gostava quando a ex-mulher falava como se ela fosse a única com um trabalho importante.

"Eu também quero passar na casa da Viviane. Ver se ela ta precisando de alguma coisa." A ruiva disse, dessa vez com a guarda mais baixa.

"Você quer que eu vá junto?" O professor ofereceu.

"Eu não sei se ela vai gostar que eu apareça com um estranho."

"Eu não sou um estranho."

"Pra ela você é."

"Tá bom, faça como quiser." Bradley respondeu apático.

"Obrigada ainda assim." Jessica disse sinceramente.

"Aham."

Os dois ficaram em silêncio. Bradley olhou em volta e percebeu alguns olhares sobre eles. Isso já era comum pra ele, geralmente quando os dois estavam juntos, eles despertavam esse tipo de atenção. Ele sempre se sentia meio overdressed nessas ocasiões.

"O que aconteceu naquele dia com o Andrew?" A ruiva disparou do nada, tirando Bradley de seus devaneios sobre vestimenta.

"O quê? Como assim?" O professor perguntou meio perdido.

"O que ele disse que eu não posso falar com ele?"

O rosto da ruiva era de alguém genuinamente cheia de dúvidas. "Eu to perguntando porque eu não consigo entender. A gente tava se dando bem. O que ele falou de tão ruim?"

"Não importa Jess, já passou." Bradley tentou dar um fim no assunto.

"Você pode não ter reparado, mas a gente tava próximo. Você não precisa me proteger, eu posso lidar com o que seja lá o que for." Jessica insistiu.

"Eu ainda acho melhor não." Bradley disse na esperança de que a ex deixasse o assunto.

"Eu preciso saber, Bradley!" Jessica disse já impaciente.

"Ta bom!" Bradley sabia que a ruiva não ia mais deixar passar. "Naquele dia, quando o Júlio falou aquelas coisas, péssimas de se dizer aliás, a Elizabeth sugeriu ao Andrew que ele ficasse com você pra você não ficar mais com o Júlio. Aí o Andrew disse que não queria um fardo na vida dele." O professor falou a última parte temoroso.

"Ah." Foi tudo o que a ruiva conseguiu fazer falar.

"Eu quis te proteger." Bradley se justificou.

Jessica segurou seus braços com força, "obrigada." Ela forçou um sorriso.

"Acho que já deu os 10 minutos, vamos embora?" Bradley perguntou se levantando.

"Ok."

"Eu vou falar com aquela menina que voltamos outro dia." Bradley avisou e Jessica concordou.