segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Cidadania, baseado e escada

Marinette, era uma mulher que Vincent e Cheryl estavam ajudando a fazer doces para venda, fruto do projeto da aula cujo tema era cidadania. Marinette pegou a vassoura e começou a varrer em direção a Cheryl e Vincent, expulsando eles de casa. 

"Saiam daqui e levem essa joça pra fora da minha casa." Marinette resmungou, brava. 

"Tá bom, tá bom. A gente já tá saindo." Vincent levantou as mãos em rendição. 

"Podemos só pegar o..." Cheryl apontou para a caixa de fósforo em cima do sofá. 

"Peguem e sumam daqui. Não quero ver nenhum dos dois hoje na minha casa."

Cheryl pegou rapidamente a caixa de fósforo do sofá e colocou no bolso do short. "Então até amanhã." A Geordie deu um beijo no rosto de Marinette. 

"Até, filha."

"Amanhã a gente passa aqui depois da escola." Vincent informou. 

"Vou tá esperando. Mas sem essa geringonça, hein!" Marinette advertiu. 

"Pode deixar." Vincent e Cheryl responderam juntos e saíram da casa de Marinette. 

"Você disse que ela não sabia o cheiro." Cheryl reclamou descendo a escadaria que ligava a rua ao sobrado. 

"É. Acho que subestimei ela." Vincent foi descendo logo atrás. "Quer terminar aqui?" 

"Tá bom." A inglesa tirou o fósforo do bolso e tentou acender o baseado na boca do Vincent, mas o fogo apagou rapidamente. 

"Você tem que acender mais de perto pra não dar tempo de apagar até chegar aqui." Vincent instruiu a menina. 

"Você tá muito alto. Abaixa a cabeça."

Vincent abaixou a cabeça e a Geordie tentou de novo, dessa vez sendo bem-sucedida na tarefa. Vincent deu um tragou e passou o baseado para a Cheryl. A menina colocou o baseado na boca e sentou no degrau, apoiando as costas na parede e esticando as pernas até os pés encostarem na outra parede. Vincent fez o mesmo, mas do lado contrário, de modo que um ficou de frente para o outro. 

Cheryl inalou a fumaça, encostou a cabeça na parede e fechou os olhos. A menina estava pensativa e Vincent precisava saber o motivo. 

"O que que tá pegando?" Vincent cutucou a perna da britânica com o pé. 

"Você acha que o Edward pode ainda gostar da Bella?" Cheryl abriu os olhos e fitou o amigo. 

"Você tá com ciúmes?" Vincent puxou o baseado dos dedos da menina. 

Cheryl deu de ombros. "Não posso competir com o que tá escrito nas estrelas. Sei lá, me sinto o Miguel."

"Miguel Arango? Acho que você é menos raivosa. Ele era muito abusivo." Vincent refletiu. 

"Que Miguel Arango, seu idiota! Tô falando do Miguel do Jack e da Rebecca."

"Tá falando de this is us?" Vincent perguntou confuso. 

"Sim! Jack e Rebecca tava escrito nas estrelas. O Miguel nunca conseguiu passar de um rebound pra Rebecca."

"Você e o Edward não vão durar muito tempo, então tanto faz."

Cheryl ficou de boca aberta. "Você não sabe disso." 

"Pior que eu sei. E outra, se ele te trocar pela Bella, é porque ele não te merece, e por que sofrer por quem não te merece?" 

Cheryl não respondeu, só ficou fitando o próprio tênis. 

Vincent olhou para a menina e percebeu a tristeza nos seus olhos. "Me conta. Por que você acha que ele pode ter sentimentos pela Bella?"

"Senti que ele ficou afetado pelo que aconteceu com o pai dela. E sei lá, parece que tá todo mundo shippando eles de novo." Cheryl explicou. 

"Isso não quer dizer nada."

"É, pode ser que não." Cheryl deu outra tragada e deixou a fumaça inundar seus pulmões, trazendo uma sensação estranha de bem-estar. 

"Ei." Vincent chutou seu braço de leve. "Se o Edward quisesse tá com a Bella, ele já estaria há muito tempo. Ele teve todo o tempo do mundo pra tentar voltar com ela e não fez nada. Pelo contrário. Namorou a Katie, saiu com a Khaleesi, namorou a Zoe e sabe sei lá mais quem. E só agora que tá com você que ele ia redescobrir os sentimentos por ela? Não faz muito sentido."

"O pai dela não tinha infartado antes!"

"Grande coisa que ele infartou. Pessoas infartam todos os dias e continuam vivas. O cara é magro e da polícia.Tenho certeza que ele vai ficar bem."

"Ele tá super em forma, né? Como será que isso aconteceu."

"Também não sei. Esses caras da polícia treinam que nem loucos pra terem fôlego em caso de perseguição ou coisa do tipo."

"Estranho." Cheryl concluiu. 

Os dois ficaram fumando em silêncio por alguns minutos, passando o baseado de um para o outro. 

"Não queria ser a garota da calcinha." Cheryl tacou uma pedrinha na parede com raiva. 

Vincent gargalhou. "É por isso que eu não namoro ninguém que já teve histórias épicas."

"Você namorou a Lana! Ela e o Clark foram épicos!" 

"Não foram não."

"Foram sim."

"Não foram não."

"Foram sim!" 

"Eles namorarm quando eram muito crianças. Ninguém leva namoro de criança a sério." Vincent argumentou. 

"De alguma forma, acho ainda mais forte."

"Cala a boca." Vincent falou visivelmente irritado. 

"Desculpa."

"Tudo bem."

"Vem, vamos embora." Vincent levantou e estendeu as mãos para ajudar a Geordie a se levantar. 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Inception

 Edward estava enrolando o cabelo de Cheryl pensativo, quando a Georgie interrompeu seus fluxos de consciência e perguntou: 

“What are you thinking of?”

“That I like it when your hair is red”.

“But me hair isn't red now”, disse a garota desconfiada.

“No, it isn’t”, ele constatou com uma cara séria e brincalhona ao mesmo tempo. 

“You know what I think?”, ela se virou agora totalmente em direção a ele. “I think you're lying”.

“Why would I lie to you?”

Edward sabia qual era a desconfiança dela, mas não poderia simplesmente adivinhar, pois deixaria tudo muito suspeito. Pareceria que ela estava certa.

“I don’t know”, ela colocou os braços ao redor do pescoço dele. “But people do that”. 

Ele não podia dizer que com ele era diferente, porque, de fato, mentia para ela naquele momento.

“People are idiots!”, respondeu o vampiro, colocando as mãos ao redor da cintura da namorada. Sabia que aquela resposta não fazia sentindo algum, mas não queria mentir mais uma vez para a Georgie. Ele aproximou os lábios do dela e os dois se beijaram ternamente, algo que estava se tornando mais comum entre os dois, o que, para Edward, era ótimo e péssimo.


Assim que se separaram, ela o encarou com seus puppy eyes, analisando-o. 

“You look sad, pet. Actually, you've been looking sad for a while”, ela falou séria.

“Say what you’re really thinking. Say that I'm sad since Bella's father had a heart attack”, pensou ele.



“I am sad”, ele aproximou o nariz do dela encostando-os e movendo de um lado para o outro.

“Tell me what’s going on”.

Vamos pôr alguns pingos nos is. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com Charlie e Bella, nunca teve. De fato, ele tinha ficado preocupado com a situação, mas era uma preocupação de amizade. Ele sempre se preocuparia com Bella. Não que os outros precisassem saber. Ou a própria Bella. Era melhor do jeito que estava para que não houvessem especulações. Por acaso ele cogitou ficar alerta para transformar Charlie em vampiro caso algo de pior acontecesse? Carlisle o chamou de louco. Disse que não poderiam transformar todo mundo que eles conhecessem só porque corriam risco de vida. A morte era inevitável e natural. 

“Você quis transformar a Katie”.



“Eu quis assustar a Katie, é diferente. Ela não estava cuidando da própria saúde”.

“Carlisle, eu leio mentes. Se ela estivesse morrendo daquela vez, você transformaria ela. Se ela estivesse morrendo hoje”, frisou Edward, ‘você transformaria ela”.

“Eu não precisaria fazer isso, você já teria feito antes”.

“A casa inteira já teria feito isso antes”.

“O que prova que a Katie é muito diferente do Charlie”.

“Eu não preciso mentir pra você, Carlisle. Você sabe que eu não estou pensando no Charlie”.



“Bella tem a mãe, Edward. Não é como se ela fosse ficar sozinha no mundo. Sem contar que nem sabemos se a Bella gostaria dessa ideia”.

“Nem a Katie e ainda assim ela não tem livre arbítrio algum. Ninguém ligaria se ela dissesse que não”.

Foi um flash. Tudo muito rápido. Carlisle era bom de esconder seus pensamentos de Edward, pelo menos os mais importantes. Mas Edward também era um bom leitor de mentes, nada passava despercebido por ele.

“Você vai transformar a Katie?”

“Eu vou oferecer à Katie essa opção”.

“Ela está viva”.

“Não consigo mais viver sem ela”.

Edward ficou quieto. Ele também não conseguia mais viver sem ela. Mas condenar a alma de Katie, isso era complicado. Mas viver sem a Katie, mais complicado ainda. Se ela morresse, ele morreria e, pelo visto, Carlisle também.

“E se ela não aceitar?”

“Não seria para agora, Edward. É para um futuro. Quero que a Katie aproveite o pai, tenha uma vida, filhos, se ela conseguir tê-los”.

“Se a Katie tiver filhos, ela não vai querer viver pra sempre sem eles”.

“Eu sei, eu sei! Daí eu teria que respeitar a decisão dela, mas, por agora, pelo o que sabemos, ela é estéril”.

“E o marido dela?”

“Você pode ser o marido dela!”

Carlisle estava muito, mas muito louco.

“Com 7 anos? Ela e as pessoas aceitariam muito bem isso”.

“Agora com a tecnologia do Jorge, podemos aparentar qualquer idade. Você envelheceria e ficaria da idade dela”.

“Carlisle, você não pode estar falando sério!”

“Você ama a Katie!”

“Eu amo a Cheryl!”



Carlisle pareceu ficar surpreso por um momento, mas depois se recompôs.

“Já falou isso pra ela?”

“Já”.

“E ela?”

“Quando as pessoas da idade dela dizem ‘Eu te amo’ não é como se elas tivessem a mesma consciência que nós temos. E ela certamente amou mais o Tom, o Vincent, o Sebastian e até mesmo o Niall mais do que eu”.

Uma piada rápida passou pela cabeça de Carlisle, o que deixou Edward com ódio. Carlisle estava realmente descuidado naquele dia.

“Então você realmente está amando a Cheryl?”

Edward suspirou. Não queria se abrir sobre os seus sentimentos, mas sentia que estava explodindo e a melhor pessoa para desabafar sobre era o Carlisle.

“Muito”, ele fez uma careta. “O quão idiota eu sou?”

“É bom amar, Edward!”

“Eu amo para perder. Me imbrico nas pessoas, a gente termina, elas seguem as vidas e eu fico ali, arruinado, remoendo tudo até ter reaproveitado todo o possível e mais um pouco”.

“Você acha que esse é o caso da Cheryl também?”

Edward assentiu sem graça. “Você acredita que um dia eu quase falei: ‘Cheryl, eu quero ser seu príncipe’ e ‘Queria comer o seu cabelo’?”.



“Eu não diria a do cabelo”.

“Eu sei que eu sou estranho, mas ela não precisa saber. Sabe? Às vezes eu queria nunca ter namorado com ela. Menos estresse”.

“Amar é bom, Edward. Nem todo mundo tem esse privilégio”.

“Ela nunca vai me amar como eu a amo. Ninguém nunca me ama como eu amo”.

“Katie quase morreu por causa do seu relógio”.

“E eu morreria por um fio de cabelo dela, Carlisle, sabendo pelo o que eu estava morrendo. Ela foi inconsequente, era mais nova, não sabia direito a seriedade daquilo”.

“Acho que a primeira facada deu uma ideia a ela”.

“Se ela morresse naquele dia, eu já estaria morto no dia seguinte”.



“Você seria feliz se ela fosse a sua esposa”, constatou Carlisle para provar o seu ponto.

“Mas ela não, o que me deixaria infeliz”, falou Edward com dificuldade. “A verdade é que a Katie não é uma pessoa que seria feliz com um ‘para sempre’. Pessoas como ela gostariam de morrer. Ela…”, aquilo era difícil. Edward odiava aquela sensação horrível de choro preso que nunca sairia. “Ela precisa reencontrar a mãe”.

Dessa vez Carlisle ficou em silêncio.

“Acho que nos apegamos demais a essas pessoas”, disse o professor quebrando o silêncio.

Aquele era o momento pelo qual Edward estava esperando. Aquela era a hora de dar voz ao que estava martelando na sua cabeça há um tempo.

“Carlisle, por que não morremos? Por que não tornamos essa a nossa última vez? Aproveitamos a máquina do Jorge, aproveitamos a chance de envelhecermos que nos foi negada e quando chegar a idade certa, vamos todos juntos aos Volturi?”

“Eu amo vocês, Edward. Não posso pensar numa vida em que eu perco a todos propositadamente, ver meus filhos morrerem, a mulher da minha vida… Aliás, não acho que aqui seja o momento ou a hora apropriada de falarmos dessas coisas. Eu preciso voltar a trabalhar logo, logo”.



“Está bem!”

O psicólogo estava preocupado. Edward era impulsivo. Era bem capaz dele já ter chegado a resolução de que aqueles seriam seus últimos anos. Provavelmente, acabaria depois do último suspiro de Katie ou de Bella. Agora tinha a Cheryl também, mas o quão longe tinha chegado aquela paixão? Será que era tão forte como as outras? Carlisle duvidava, mas vai que… O professor deixaria o assunto passar no momento. Ainda tinha um bom tempo para convencer Edward do contrário. Se acontecesse algo com Edward e com Katie, Carlisle não aguentaria, o que acabaria condenando Esme. Os outros sobreviveriam sem eles, mas não seriam os mesmos. Ele decidiu espantar o assunto. Não queria mais aquelas agruras no momento. 

Tudo aquilo havia acontecido há pouco tempo e tinham ocupado a cabeça de Edward durante alguns dias, mas naquele momento com Cheryl, tudo o que ocupava sua mente eram os sentimentos que nutria pela Georgie e o quanto eles estavam aumentando e o quanto isso era perigoso para ele.

“Pet”, disse Edward resoluto, “I want to be your prince for your 15th birthday”.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Put the fire down for the love of a daughter

“Ela ta grávida.”

“Provavelmente.”, respondeu Asa dando de ombros.

Crystall sentiu os olhos arderem. Mais uma criança. Mais um irmão. E de outro homem. Sua mãe era uma daquelas mulheres que tinha um filho de cada homem. Que decepção!

“Às vezes...”. Asa olhou para ela, o que a fez se deter. Os dois ficaram se olhando, mas quando Asa percebeu que Crystall não continuaria a frase, voltou a olhar para a mesa. 

A menina odiava a tranquilidade do irmão. Parecia que ele não se importava com nada que acontecia naquela família. Ele era tão apático. Ou talvez, ele já esperasse que algo assim acontecesse, por não esperar nada de sua mãe. 

“Às vezes gostaria que ela não fosse a minha mãe.” Crystall por fim falou.

Sem olhar para ela, Asa respondeu: “Se você não fosse filha dela, você não existiria.”

Não era essa a questão. Ele certamente havia entendido o que ela queria dizer, mas preferiu desconversar. 

“Talvez eu preferisse não existir.”

A frase não estava mais longe da verdade, mas Crystall estava se sentindo dramática e no drama vale tudo. 

Entretanto, seu interlocutor era o Asa, por isso não recebeu uma resposta. Parecia que ele nem havia escutado o que ela acabara de dizer. Será que ele tinha escutado o que ela disse?

“Talvez eu preferisse não existir.”

“Eu escutei da primeira vez.”

Maldito!

“E não vai dizer nada?”

“Nem você acredita nisso...”

Mas Crystall acreditava muito naquilo. Ela queria uma família de comercial de margarina, mas o comportamento da mãe era pecaminoso, sujo e isso a fazia se sentir muito mal.

“Talvez não, mas eu realmente queria que ela não fosse a minha mãe.”

“Só porque ela pode estar grávida?”

“Sim! E porque ela é uma estraga-família! Ela estragou a sua, Asa! Vê como o Andrew e a Jessica são felizes agora.”

“Estão felizes agora.”, Asa corrigiu.

Crystall percebeu a alfinetada ao casal, mas decidiu ignorar, porque o ponto não era aquele.

“O ponto não é esse. O ponto é que ela estragou a sua família. Você, seu pai e sua mãe.”

“Mas me deu as minhas irmãs.”

“Você poderia ter tido outras irmãs sem ela ter se divorciado do seu pai.”

“Mas aí nenhuma delas seria você.”

Touché. Crystall quis sorrir com o comentário. Ele tinha dito de propósito, certamente, até porque Asa não era dado a sentimentalidades. Mas ela gostou. Gostou, principalmente, pois Asa era o seu irmão favorito e ela não tinha a menor vergonha de achar isso.

“Olha... nossa mãe, apesar dos defeitos dela, é melhor que a maioria das mães. Ela daria a vida por cada um de nós. Mesmo que eu ache que ela já tem muitos filhos e deu mais uma bola fora, isso não apaga o fato de que nos momentos que eu mais precisei, ela esteve comigo. Ela é uma boa pessoa, só é...”

“Foguenta”, Crystall concluiu. 

“Eu ia dizer carente.”, Asa a corrigiu. “Mas, sabe, eu não acho que tem problema nenhum você se sentir dessa forma em relação à minha mãe. Você está dizendo isso porque está chateada e é seu direito.”

“Não sei como eu nasci tão moralista.”

“Nem eu! Ninguém aqui é moralista.”

O interfone tocou. Asa foi atender. Crystall ainda escutava a mãe vomitando no banheiro. Tinha dito que devia ter sido algo que ela comeu no Ano Novo. Provavelmente a torta vegana de Jessica, ela disse aos risos e vômitos. Essa passiva-agressividade com Jessica eta ridícula, até porque a ruiva era muito mais decente que a mãe. Nisso, Antonella perdia de lavada. 

Asa voltou segurando o saco com os remédios da farmácia que a mãe tinha pedido. Ele mostrou para Crystall o  teste de gravidez. Então, pelo o que parecia, sua mãe também desconfiava que poderia estar grávida. 

Ele guardou novamente o teste no saco e foi em direção ao banheiro falar com a mãe.

“Será que a mamãe vai ficar bem?”, perguntou Daisy, que tinha acabado de sair do quarto.

“Deve ficar.”, respondeu Crystall.

Daisy deitou no colo da irmã. Crystall gostava dela. A chata mesmo era a Joy.

Asa voltou para a sala e se sentou de volta no seu lugar. 

“Quantos testes?”, perguntou a garota sem fazer som.

Asa fez o número quatro com a mão.

Então o que restava era esperar e ver se a mãe daria a notícia para eles logo depois ou se ela ligaria para Calvin primeiro. Provavelmente, ele começaria a morar ali e Crystall nunca mais se sentiria em casa. Isso, claro, até Antonella trai-lo com outro homem e engravidar desse outro. Ela deveria ligar logo as trompas.

Passado uns 10 minutos, Antonella saiu do banheiro, com uma cara péssima. Sem cerimônia, ela falou:

“Boa notícia: não to grávida. Notícia ruim: estou com Covid. Liguem para os pais de vocês. Talvez, Asa, seja melhor você ficar com o John, porque a Jessica ta grávida e há uma chance de vocês terem pego também. Vão precisar fazer o teste. Façam o top que não tem margem de erro. Se der positivo, vocês ficam comigo. Se der negativo, com os pais de vocês. Eu vou me deitar um pouquinho. Não to me sentindo muito bem.”

Crystall ficou feliz e assustada ao mesmo tempo. Bem, melhor Covid do que gravidez, não? Covid não estava tão perigoso quanto antes. A mãe ficaria bem.

“Vou ligar para o meu pai.”, disse Crystall alegre. 

“Nunca vi alguém tão feliz pela outra estar com Covid”, observou Daisy, que trocou olhares suspeitos com Asa.

“Dos males o menor, maninha. Dos males o menor!”, falou ela saindo da sala. Daisy foi atrás da irmã. 

Asa, ao se ver sozinho, pegou o celular e foi até os seus contatos fazer uma ligação. O telefone começou a tocar. Pouco tempo depois veio a resposta:

“Alô?”

“Alô, Calvin? Aqui é o Asa, filho da Atonella...”

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Madrilenhos

Bradley olhava o celular distraído enquanto estava na fila da confeitaria para fazer seu pedido para viagem. Ele levantou o rosto para saber o que estava fazendo a fila demorar tanto para andar e viu Jennifer no balcão pegando um madrilenho da caixa e colocando inteiro na boca. O professor riu da cena e largou seu lugar na fila para ir até a garota.

"Não conseguiu esperar até chegar em casa?" Bradley brincou.

"Tô com fome." A menina respondeu de boca cheia.

"Deu pra ver." Bradley riu.

"Como vai a Bethânia?" Ela limpou a boca com as costas das mãos.

"A Elizabeth vai bem. Vim aqui comprar umas coisas pra ela comer. Ela adora essas coisas de padaria. E o seu namorado, como vai?"

"Ex-namorado."

"Sério?" Bradley perguntou surpreso. "Não fiquei sabendo."

"Foi recente. Ainda não tinha chegado na boca de Matilde. Até agora."

"Eu não sou fofoqueiro!" O professor se defendeu.

"É sim. Parece até mulher."

"Eu só gosto de escutar a fofoca. Não sou de repassar. Principalmente sobre você. Vai morrer aqui."

"Tudo bem. Não é como seu eu tivesse escondendo das pessoas."

"Você tá bem?"

"Pode tirar esse olhar de preocupação desnecessário. Fui eu que terminei."

"Posso saber porquê?"

"Na verdade não."

"Jen..."

"Você realmente é tão egocêntrico a esse ponto? Nem tudo é sobre você, Bradley!"

"Eu sei que não." Bradley pegou o copo de café da mão da menina e tomou um gole.


Jennifer olhou para os lados e tornou a olhá-lo.

"Quando você vai pedir a Bethinha em casamento?"

"Não chama ela assim. Me lembra a rainha que morreu."

"E voltamos pra Bethânia."

"Não sei. Tô esperando o bebê nascer primeiro."

"Confesso que fiquei um pouco confusa quando eu soube que vocês tavam tão sério assim. Você tinha me dado a entender na época, que em toda a sua vida, você só teria olhos pra Jessica."

"Aquilo era mais nostalgia e uma crença cega na instituição matrimonial. Hoje eu vejo as coisas com mais clareza e menos romantizadas. Não existe só uma pessoa certa. Você pode ser feliz com várias pessoas diferentes. As duas só têm que estar dispostas a fazerem dar certo."

"Eu acho que vocês vão dar certo. Eu fui uma das poucas que apostei no sucesso dos dois."

"Espero que sim. Ainda mais agora que vamos ter uma criança envolvida."

"E era isso que você queria?" 

"Como assim? Reconstruir minha família?" 

"É que você tinha dado a entender que tava me dando um fora por causa da Jessica. Foi uma m***a, mas eu entrei na jogada sabendo dos seus sentimentos por ela, então não é como se eu pudesse cobrar uma super lealdade sua. Só que agora você tá praticamente casado e tendo um filho com outra e... acho que eu só queria saber se você chegou a pensar em me procurar antes de se amarrar desse jeito com a Elizabeth."

Bradley arregalou os olhos surpreso com a pergunta da menina. 

"Deixa pra lá." Jennifer puxou o café de volta da mão de Bradley e foi embora.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Entre uma mãe e uma filha

Jonathan preparou a mochila com as coisas do trabalho no dia seguinte. Depois ele olhou para o presente embrulhado em cima da sua cama. Era uma péssima ideia presentear a menina, Jessica odiaria, mas o inspetor não conseguiu evitar.

No dia seguinte, Jonathan procurou o momento perfeito para dar o presente à Emma sem chamar atenção.

Ele observou quando a menina chegou na escola acompanhada de sua mãe, seu padrastro e suas irmãs. Por mais que o inspetor odiasse admitir, aquela família era linda. Mel estava chorando porque queria continuar dormindo, pelo o que deu para entender. Jessica pedia impacientemente para a bebê no colo parar de chorar, enquanto dava um beijo de boa aula nas meninas mais velhas.

Emma foi para a sala de aula e Jonathan a seguiu com o olhar. Já era um hábito dele seguir a menina por todos os lugares da escola, exceto a sala de aula, apenas com o olhar.

Jessica entregou Mel para o marido e se distanciou para atender o celular.

Jonathan se perguntou como aquela bebê chorona ia estudar naquela escola.

Andrew foi com Mel para a sala de aula dela, tentando acalmá-la. 

O inspetor estava por perto quando a caminho da sala dos professores, Jessica sofreu uma tontura.

"Você tá bem?" Jonathan se aproximou da ruiva.

"Acho que minha pressão abaixou." Jessica respondeu, tentando achar alguma coisa fixa pra se apoiar.

"Deixa eu te ajudar." Jonathan pegou a mão da ruiva e a levou com cuidado para a sala dos professores. "Tá tudo bem com a sua gestação?"

"Tá. Eu só tenho andado meio estressada."

"Quer falar sobre isso? Você não precisa esperar até a reunião pra conseguir desabafar. Além disso, eu acabo sabendo de tudo da mesma forma."

"Eu tô preocupada com o Andrew. Desde que o pai dele morreu parece que ele vai desabar a qualquer momento. Ele tá tão frágil ultimamente... Agora eu tô com esse medo constante de fazer ou falar a coisa errada e acabar piorando as coisas. E pra completar a mãe dele também tá doente e todo mundo fica temendo o dia que ela não vai lembrar mais de nada e acabar morrendo."

"Isso realmente é péssimo." Jonathan disse solidariamente. 

"E também tem a Mel. O pediatra dela disse que provavelmente ela tem uma doença genética que faz ela se desenvolver mais lentamente que as outras crianças."

"Como assim?" 

"Que quando ela tiver vinte anos, ela vai ter a aparência e o intelecto de uma criança de sete."

Jonathan arregalou os olhos, surpreso com o fato. 

"Mas isso é certeza?" 

"Não, mas tem grande chance. Agora minha filha que não tem nem dois anos vai ser submetida a uma série de exames e muitos deles invasivos pra idade dela."

"Nossa, Jessica... Não sei nem o que falar... Mas não foi a Emma que nasceu com um problema grave no coração? Olha pra ela agora! A Mel vai ficar bem. Eu tenho certeza disso."

"Eu também fico pensando nessa bebê que vai nascer. Ninguém vai conseguir ficar feliz com o nascimento dela porque ela vai nascer no meio do caos."

"Claro que não. Ela vai vir justamente pra dizer a vocês que vai ficar tudo bem. Vocês vão olhar pro pequeno milagre de vocês e não vão conseguir argumentar contra. Honestamente, não acho que ela conseguiria vir em melhor hora."

Jessica sorriu. "Eu queria que você fosse assim sempre." 

"Eu sei. Desculpa. Você ainda me afeta." Jonathan admitiu. 

"A gente podia virar a página... Você já superou aquele interesse bizarro pela minha filha, né?" 

Jonathan tossiu seco. "Sim. Aquilo foi um erro."

"Ótimo. Então amigos?" Jessica estendeu a mão. 

"Amigos." Jonathan apertou, se sentindo culpado. 

Mais tarde, no fim do recreio dos alunos, Jonathan puxou o braço da Emma quando ela ia começar a subir as escadas e a levou para um canto afastado. 

"Oi." Jonathan falou com pouco fôlego. 

"Oi." Emma falou na mesma entonação do inspetor. 

"Desculpa ter te trazido assim, é que eu... Bem, ontem foi o seu aniversário e eu quis te dar um presente." Jonathan entregou o pacote para a menina. "Feliz aniversário."

"Não precisava." Emma disse surpresa.

"Se quiser abrir agora." Jonathan falou ao ver que a garota olhava pra ele sem saber o que fazer. 

"Sim, claro." Emma desembrulhou o presente e viu uma camisa toda pichada com alguns desenhos e coisas escritas.

"Eu pedi pra um amigo meu que é artista personalizar a camisa pra você." Jonathan explicou. 

"Eu amei." Emma disse sinceramente. "Obrigada." Ela abraçou o inspetor e ele inalou o cheiro do seu cabelo. 

"Fico feliz que tenha gostado." Jonathan apertou sua cintura. 

"Eu amei. Como você sabia que eu gostava dessas coisas?" Ela desfez o abraço para olhá-lo. 

"Eu presto muita atenção. Pra falar a verdade, eu só consigo olhar pra você sempre que a gente tá no mesmo ambiente."

"Sei."

"É verdade. É como se você fosse um ímã pros meus olhos."

"E você não tá me usando pra afetar a minha dinda?" 

"Não, eu juro. Emma, se eu pudesse eu me interessaria por qualquer uma que não fosse você, mas eu não consigo. Eu só consigo pensar nesse seu sorriso lindo, nessa sua voz rouca e nesses seus olhos tão hipnotizantes."

"Eu tenho que voltar pra sala." Emma o lembrou. 

"Tá bom." Jonathan respondeu decepcionado. 

"Obrigada pelo presente."

"Não foi nada."

Emma subiu com o presente nas mãos e Jonathan coçou a barba pensativo. 

sábado, 10 de setembro de 2022

Que falta me faz um xodó

“Sério, Calvin”, disse a Antonella rindo, tentando se desvencilhar dos beijos do pai de Jane e Jamie. “Eu preciso ir”.

Os dois estavam em pé no corredor mal iluminado do apartamento de Calvin, que dava para a porta principal do apartamento.

“Por quê?”

“Você sabe bem o porquê”.

“Sei?”, ele perguntou, indo beijar o pescoço da loira.

Era difícil resistir àquele homem.

“Calvin, eu realmente preciso ir”.

“Por que você não deixa as crianças dormirem na casa do padrinho delas? Elas já tão lá mesmo”.

“Porque...”, Antonella parou de repente. Sim, aquilo parecia uma boa ideia. Bradley provavelmente não se importaria. Ele gostava de crianças. 

Quando ela ia ceder, acabou se lembrando de um detalhe crucial. “A roupa! Eu não trouxe a roupa pra entrevista. Vou ter que ir mesmo”.

“Você pode usar uma minha! E por que você tem que fazer essa entrevista mesmo?”, ele reclamou manhoso.

“Eu realmente preciso explicar?”, A loira se afastou dele olhando-o seriamente, encostada na parede do corredor, de braços cruzados.

“Você sabe muito bem o que eu quis dizer. Você é dona de uma galeria, não precisa de outro emprego!”

“Uma galeria falida e, sim, eu preciso de um outro emprego. Cansei de ser caixa, garçonete, faz tudo, sei lá”.

“Você tá nesse emprego porque quer. Já disse que pode morar comigo! Nós dividiríamos as despesas”.

“E eu já disse que as crianças iriam me matar se isso acontecesse”.

“No começo. Mas depois elas se acostumariam”.

“Mas você é muito insistente!”, ela espremeu a bochecha dele com uma das mãos e deu um selinho na boca do amante.

“Só quando eu quero muito uma coisa!”, ele a abocanhou, já enfiando a língua dentro da boca de Antonella. Fazia muito tempo que um homem deixava a loira fora de si. Com muita força de vontade, ela o afastou novamente.

“Calvin!”, ela choramingou. “Por favor, eu preciso ir! Preciso estar bem pra entrevista. Não quero acordar cansada”.

“Está bem, está bem. Então pelo menos, deixa eu te levar pra casa?”

“Eu ainda vou buscar as meninas”.

“Elas não iam ficar no padrinho?”

“Antes. Mas agora eu não vou ficar aqui. E foi até pra melhor, porque você não iria me deixar dormir”.

“Não deixaria mesmo”. Calvin a abraçou.

Os dois ficaram abraçados quietos por um curto tempo, até que o pai de Jamie perguntou:

“Você falou com o seu ex? Ele vai te acompanhar na entrevista?”

“Falei, mas ele disse que não vai. Disse que não poderia fazer nada, que agora era comigo”.

“Má vontade!”

“Não posso reclamar. Se não fosse por ele, eu nem teria conseguido a entrevista”.

Para Calvin uma entrevista não significava nada se a pessoa não tivesse já mexido os pauzinhos para conseguir o emprego para a outra. Ele não sabia se Andrew tinha ou não feito isso. Esperava que sim. Já estava cansado da Antonella trabalhando de garçonete. Era ridículo e infantil da parte dela manter aquela palhaçada por orgulho. Não tinha como aquele emprego ajudar nas finanças. Era realmente muita infantilidade! Um trabalho como professora era bem melhor. O British School não era um Cavalinho Feliz, mas era uma boa escola. Calvin era cético. Ele não acreditava que Antonella conseguiria a vaga sozinha, só com o currículo dela. Não! Ela precisava de um empurrãozinho. Bastava agora saber se o ex-marido apaixonado tinha feito o trabalho completo.

“Meu uber já chegou”. Antonella falou, desfazendo o abraço a contragosto.

“Desde quando você pediu o uber?”, Calvin perguntou desconfiado.

“Um momento aí!”. Ela viu a cara desconfiada do amante e acrescentou: “Eu tenho muitas habilidades”.

A loira não tinha pedido uber ainda, mas precisava mentir, senão, ela não sairia de lá nunca. Ela acabaria cedendo e ela não podia ceder.

“Tem poderes. Psíquicos. Pediu o uber com o poder da mente”. Antonella riu.

“Bobo!”, ela o beijou mais uma vez e abriu a porta.

“Tchau, meu tiramisú! Vai dar tudo certo amanhã! E pensa com carinho na minha proposta!”

“Sim, eu já to!”, ela gritou de volta.

Pela italiana, ela se mudava para ontem, mas as crianças a odiariam eternamente por isso. Na verdade, Crystall a odiaria por isso. Ela não podia fazer isso com a filha por mais que quisesse.

Antonella saiu animada. Animada com a vida, com os filhos, com o amante, com a entrevista e, principalmente, com o...

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Papo de intervalo

Emma saiu da sala do grêmio faltando quinze minutos para acabar o recreio. Ela sentou num canto afastado e abriu seu livro de química molecular. Pouco tempo depois, a menina sentiu uma figura parando na sua frente. Ela levantou o olhar e fitou a pessoa à sua frente, um pouco surpresa. 

"Eu tava te procurando." Jonathan falou para a menina e sentou do seu lado.

"É?" Emma fechou o livro, colocou do seu lado e voltou sua atenção para o inspetor.

"Eu não te vi no pátio e estranhei. Aí comecei a te procurar."

"​Eu tava numa reunião na sala do grêmio."

"Você é do grêmio? Que legal! A reunião era sobre o quê?"

"Basicamente sobre a peça do final do ano que o Ryan quer que seja perfeita."

"Você vai ter algum papel?"

"Não." Emma torceu o nariz.

Jonathan riu. "Eu queria que você fizesse."

"Por quê?"

"Porque aí você teria que se apresentar pra todo mundo e eu gosto de te ver."

"Gosta?" Emma perguntou surpresa.

"Claro! No intervalo de vocês eu sempre tento achar onde você tá pra poder te observar. Foi assim que notei sua ausência."

"Uau."

"Espero que você não ache isso ruim." Jonathan acrescentou.

"Não, não acho. Só tô um pouco surpresa. Outro dia você falou que nem reparava em mim. O que mudou de lá pra cá? Foi saber que eu sou filha da minha madrinha?"

"Isso realmente me intrigou."

"Então é isso?"

"Não. No começo sim. Agora eu realmente acho que você tem um desses rostos que faz a gente querer ficar olhando."

Emma apertou os olhos para fingir que estava analisando-o. "Você também tem um bom rosto."

Jonathan riu. "Obrigado."

"Posso fazer uma pergunta?" 

"Claro."

"Você ainda gosta da minha dinda?"

O inspetor respirou fundo. "Não, não gosto. Na verdade, acho que odeio a sua mãe."

"Odeia? Não acredito."

"É sério. Sua mãe é uma mulher muito difícil. Ela me magoou muito. Até hoje eu tenho traumas."

"Eu tenho ouvido muito isso ultimamente."

"Tenho certeza que com você é diferente. Ela parece a melhor mãe do mundo. Mas a minha experiência com ela... Eu nunca me senti tão insignificante em toda a minha vida. Nem a minha ex-mulher que me achava um completo fracassado, fez eu me sentir do jeito que a Jessica fez."

"Você chegou a se apaixonar por alguém depois da minha dinda?"

"Cheguei. Duas vezes."

"E o que aconteceu?"

"A primeira acabou não aguentando viver com um acoólatra e a outra eu perdi o interesse."

"E você pensa em se apaixonar de novo?"

"Eu gostaria. É como falam, o homem não nasceu pra ficar só. Mas primeiro eu tenho que focar em ficar sóbrio. Nenhuma mulher tem que ser obrigada a lidar com a minha bebedeira."

"Você tá sóbrio agora?"

"Eu tô sóbrio há 34 dias."

"Parabéns! Tá muito difícil?"

"Um pouco. Ser apenas um inspetor numa escola em que o marido e ex-marido da Jessica são grandes professores conceituados não ajuda muito. Faz eu voltar a ter aquele sentimento de fracasso e querer beber."

"Eu não te acho um fracasso. Pelo contrário. Você tá se saindo muito bem, considerando as circunstâncias."

"Obrigado. E você? Eu falei com a Jessica que não sabia que você era filha dela e ela acabou me contando como foi que aconteceu. Já se acostumou em ser filha da Jessica?"

Emma balançou a cabeça, em negativa. "Têm umas coisas que são difíceis de se acostumar. Ainda mais agora que eles são casados e têm outros filhos."

"Você sente que eles não te dão muita atenção?"

"Até dão, mas não como antes. Antigamente, quando eu passava o dia na casa da minha dinda, ela costumava me deitar no colo dela e ficava horas mexendo no meu cabelo. E sem cansar!"

"Ela parou de fazer isso?"

"Praticamente. Hoje em dia se ela fica dois minutos assim comigo é muito."

"Que pena. E seus outros pais? Pensa em voltar a morar com eles?'

"Se eles voltarem pro Brasil, com certeza! Mas não fazia sentido eu me mudar pro Canadá. Eu ia mudar minha vida inteira e eles nem iam dar atenção pra mim porque trabalham demais."

"Olha, se um dia você se sentir sozinha e sem ninguém pra falar ou te dar atenção, pode me procurar." Ele segurou sua mão.

"Obrigada." Emma olhou pra a mão do inspetor em cima da sua e voltou a fitá-lo. 

"Eu sou muito bom em ouvir as pessoas e gostaria de te ouvir mais." Jonathan recolheu as mãos.

"Eu soube que você também é amigo da Zendaya."

"Sim, ela é bem legal, mas acho que o pai dela não gostou da nossa amizade."

"Você suspeita o porquê?"

"Acho que é por causa da minha idade. Ele acha que uma pessoa da minha idade não pode ter amizade com uma pessoa da idade dela."

"Acho que é mais porque amizade entre homem e mulher corre o risco de evoluir e acabar virando um romance."

"Você acha que ele tá com medo de eu tentar alguma coisa com a Zendaya?"

"É possível que sim."

Jonathan ficou pensativo. "Ele não precisa se preocupar com isso."

"É?"

"Ela não faz meu tipo de mulher."

"Sério? Por quê?"

"Ela é, sem dúvidas, muito bonita. Mas eu não sou lá muito alto e ela é mais alta do que eu. Eu já tenho complexo de inferioridade, se eu sair com uma menina mais nova e mais alta, vou me sentir pior."

"Entendo. Acho que se o Andrew souber disso, ele vai parar de se preocupar com a amizade dos dois."

"Se ele falar alguma coisa comigo, eu digo que ele pode ficar tranquilo."

"Acho que ele não vai falar nada. Só se notasse alguma coisa estranha."

"Ele não vai notar nada estranho porque ela é só minha amiga. E o seu pai? Também tem essa preocupação?"

"Que preocupação?"

"De você saindo com um cara mais velho."

Emma arregalou os olhos, presumindo as intenções do inspetor. "Isso nunca aconteceu comigo, mas imagino que ele não iria gostar."

"Também acho que não. Nem sua mãe. Ela odiaria."

"Odiar é pouco."

"Dá pra ver que eles querem muito o seu bem. Eu sei que você deve sentir falta dos pais que te criaram, mas você tá em boas mãos com os que você tem aqui."

"Sim, eu sei."

"Bom falar com você, Emma. Gostei muito da nossa conversa." Jonathan se levantou. 

"Também."

O sinal do fim do intervalo tocou. 

"Boa aula." Jonathan falou para a menina. 

"Obrigada." Emma pegou o livro e foi para aula repassando toda a conversa na sua cabeça.