quarta-feira, 15 de março de 2023

Especial: O que esperar quando você está esperando - Capítulo II: A declaração

A notícia do dia, na escola, era o término de Emma e Channing, e que aparentemente, Emma tinha traído o Channing. Com quem, Ryan não sabia. Não havia sido com ele, por mais que tivesse vontade, Channing era seu brother. 

Gosling não conseguiu de deixar de ficar pensativo. Ele sempre gostou da ruiva, mas sempre teve apreensão de viver algo perto da intensidade de que foi seu relacionamento com Rachel McAdams. Por esse receio, Ryan sempre boicotou qualquer possibilidade de ter um relacionamento sério com Emma. Porém, ele sentia muita falta da proximidade que um dia tivera com a menina. Naquela época, ele estava apaixonado e o medo o travou. O término de Channing e Emma abria um leque de possibilidades que o menino começava a contemplar.


Na reunião do Grêmio, a menina estava estranhamente quieta. Quando todos começaram a ir embora, ela ficou. Parecia querer falar alguma coisa. Teria sido ele o real motivo do término dos dois? 

Emma se aproximou de sua mesa. (Sim, agora o presidente do Grêmio tem uma mesa.)

"Eu preciso falar com você." Emma ajeitou o grampeador da mesa dele.

"Pois não?"

Emma fez uma careta e Ryan riu.

"Tô brincando, pode falar." Ryan falou mais sério.

"Eu vou sair do Grêmio."

"O quê? Por quê?" Ryan perguntou surpreso com o anúncio da menina. Será que o motivo do término com o Channing era que, na verdade, ela gostava dele, e não conseguia mais dividir o mesmo ambiente, e por isso a saída do Grêmio?

"Eu tenho muitas coisas pessoais pra resolver e não consigo mais conciliar com as coisas daqui." A menina explicou.

"Sem querer me meter na sua vida, mas que coisas pessoais? Você quer tempo pro bebê da Elizabeth?"

"Não."

"Então o quê? Me fala, Emma. Eu quero entender." Ryan estava frustrado. Qual era o ponto de ser do Grêmio se ela não fazia parte?

"Eu disse, coisas pessoais que não quero compartilhar."

"Não quer compartilhar comigo." Ryan falou chateado.

"Não é isso."

"Por que você terminou com o Channing?" Ryan ignorou o atrevimento da própria pergunta.

"É sério isso?"

"Eu só tô tentando te entender, Emma. Você não confia mais em mim?"

"A gente não é mais tão próximo. Você não pode cobrar de mim as mesmas coisas de antes."

"Eu queria que a gente fosse. O que eu posso fazer pra gente voltar a ser próximo? Eu faço qualquer coisa."

"Não tem o que fazer. Fica bem, Ryan." Emma saiu.

Ryan encostou a cabeça na mesa, frustrado.


********

A notícia do dia, na escola, era a gravidez de Emma. Tudo finalmente fazia sentido para Ryan, o término com o Channing, a saída do Grêmio, os segredos... Ryan precisava aceitar que o filho era provavelmente de Channing e que eles teriam um elo para a vida inteira. Ele queria xingar a Emma por ter deixado que isso acontecesse com ela, ao mesmo tempo que queria apoiá-la e mostrar que estaria com ela para o que desse e viesse. Ryan não conseguia deixar de odiar o Channing por ter roubado sua garota e feito um filho nela.

Emma provavelmente estava assustada e com medo. Será que Emma sentia que não podia confiar em Ryan com aquele segredo? Será que achou que ele a veria de modo diferente? Aquilo era um absurdo e não fazia sentido. Ele precisava mostrar que ela estava errada e que nada que acontecesse mudaria o como se sentia em relação a ela.

Ryan queria falar com a menina quando estivesse sozinha, mas o problema é que ela nunca estava. Ora estava com o seu grupo, ora com a Zendaya, ora com o Bradley, ora com o Andrew, ora com a Elizabeth e ora até com o inspetor. O jeito seria tentar falar com a menina fora da escola.

Gosling foi até a casa de Bradley e pediu, por mensagem, para Emma encontrá-lo no portão. Para sua sorte, ela aceitou.

Emma saiu do portão, empurrando o  Devon para dentro, e disse: "Já falei que não volto pro Grêmio." A menina brincou, sabendo que não era por esse motivo que Ryan tinha aparecido na sua casa.

Ryan ficou feliz ao ver que Emma não tinha perdido o senso de humor, mesmo diante àquela situação.

"Eu tinha que implorar mais um pouco." Ryan retrucou, no mesmo tom descontraído que a menina usara.

"Quer saber se é menino ou menina ou hermafrodita?"

"Vindo de você com certeza é hermafrodita." Gosling brincou.

"Tem razão." Emma riu.

"Olha, eu queria dizer que você podia ter me dito que tava grávida. Eu não ia te julgar nem nada." Ryan redirecionou o tópico da conversa.

"É que até eu tô me julgando."

"Eu não." Ryan falou sério. "Eu odeio que isso aconteceu com você, mas não te julgo. Jamais te julgaria."

"Eu só queria que isso tudo fosse um pesadelo e que eu pudesse acordar disso." Emma falou chorando.

"Ei. Vem cá." Ryan puxou Emma pelo braço e a abraçou. "Sabe o que eu sempre admirei em você? A sua força." Ele falou em seu ouvido. "Pode parecer difícil agora, mas você vai tirar isso de letra. Confia em mim."

"Eu nunca quis ser mãe."

"Eu sei. Mas às vezes no futuro você vai ser grata por ter sido mãe. E sendo seu filho, tenho certeza que vai ser uma figurinha muito especial."

"Obrigada."

Ryan pensou em se declarar naquele momento, mas imaginou que a cabeça da ruiva estava cheia de coisas mais importantes do que sua paixonite.

"Posso pedir pra você não sair do Grêmio? Agora que você tá grávida, a gente pode pensar em projetos para melhorar a acessibilidade da escola para as grávidas, criando rampas e essas coisas." Ryan riu e ele pôde sentir a menina rindo também.

"Até nos processarem dizendo que estamos comparando gravidez com deficiência física." Emma rebateu, sorrindo. 

Ryan acariciou a bochecha da menina e a vontade de beijá-la foi mais forte que ele. Ryan avançou para o beijo, porém Emma recuou. 

"Desculpa." Gosling abaixou a mão. 

"Não precisa. É que eu me sinto estranha beijando outra pessoa estando...tsc tsc" Emma fez um barulho com a boca se referindo a gravidez. 

"Mas o que é que tem? Você tá pensando em voltar com o Channing?" 

"Não, não é isso."

"Porque depois a desculpa vai ser que você não quer por causa do bebê."

"Não vai ser bem uma desculpa, vai?" 

"Eu sei que não."

"Eu também acho que você merece muito mais do que uma garota que vai ter filho de outro."

"Mas eu não ligo. A Cinthia tinha filho e eu tinha um crush gigantesco nela."

"Sim, era bem óbvio."

"Não era? A Cinthia e a Cheryl foram os meus maiores crushs."

"E você acabou perdendo pro Edward."

"Foi! Quem diria que ele ia voltar à moda."

"Também fiquei surpresa." Emma concordou. 

"Eu sou um bom perdedor."

"Aham."

"Vai me convidar pra entrar?" Ryan pediu com o charme que fazia as garotas caírem pra trás. 

"Não." Emma riu. 

"Vai sair do Grêmio?" 

"Eu vou pensar." 

"Tem certeza que não quer me dar um beijo?" 

"Tchau, Ryan."

"Tchau, Em."

terça-feira, 14 de março de 2023

Especial: O que esperar quando você está esperando - Capítulo I: A descoberta

Bradley estava preocupado com Emma. Ela parecia mais pálida que o normal e comia bem menos do que o de costume. Será que tinha pegado alguma virose? 

"Tem certeza que não quer mais um pedaço de carne?" Bradley perguntou insatisfeito com o quanto a menina tinha comido no jantar.

"Tenho. Eu vou pro meu quarto." A ruiva se apoiou na mesa para tentar se levantar e acabou desmaiando.


Bradley foi até a afilhada, desesperado. Ele tentou acordá-la, porém sem sucesso.

"Minha filha tá doente, Elizabeth! Vou levar a Emma pra emergência e vou pedir pro Andrew te levar pra casa dele."

"Não, eu vou com você." Elizabeth protestou.

"Você tá perto de dar a luz e eu não quero você se cansando no hospital e também não quero você sozinha em casa. Vou ligar pro Andrew e ele vem te buscar." Bradley falou firme, pegando a menina no colo e a chave do carro.

"Manda notícias, por favor." Elizabeth pediu preocupada.

"Pode deixar." Ele deu um selinho na diretora e saiu.


Dentro do carro, Bradley ligou para o professor de inglês.

"Andrew, por favor, você pode passar na minha casa e buscar a Elizabeth pra ficar com vocês? A Emminha desmaiou e não sei o que ela tem. Tô com medo de ser grave. Ela não come, tá pálida e tava vomitando outro dia."

"Tudo bem. Ela já acordou?"

"Ainda não. Tô muito preocupado."

"Fica calmo. Não há de ser nada. Me mantenha informado." Andrew falou num tom sério.

"Tá bom. Obrigado. Se a Jessica perguntar, inventa uma história pra ela não ficar preocupada." Bradley encerrou a ligação e foi o mais rápido possível ao hospital.

Chegando lá, Emma foi internada e Bradley ficou aguardando notícias.

Quando a médica entrou no quarto para verificar os sinais vitais da menina, o professor de estatística aproveitou para saber o que havia acontecido. 

"Já sabem o que ela tem?" 

"Ela sabe que tá grávida?" A médica perguntou checando a menina.


"Grávida?" Bradley perguntou perplexo. 

"Desculpa, você é o pai dela?" 

"Sou." Seus olhos se encheram de lágrimas. "Tem certeza que ela tá grávida?" 

"Positivo. Acusou no exame de sangue. Ela tem se alimentado direito?" 

Bradley fez que não com a cabeça, pois não tinha forças para falar. 

"Ela tá muito fraquinha. Me preocupa alguns níveis dela. Vou precisar que sua filha passe a noite aqui pra observação. Tá tudo bem pra você?" 

Bradley assentiu, novamente sem conseguir emitir nenhum som. 

"Se precisar de alguma coisa é só avisar na recepção." A médica deixou o quarto. 

Bradley segurou a mão da sua filha, abaixou a cabeça e deixou o choro tomar conta.


Mais tarde, ele ligou para Elizabeth para mandar notícias. 

"A Emma vai precisar passar a noite aqui em observação."

"Que pena. Ela acordou?"

"Ainda não."

"Qualquer coisa, me avisa."

"Aviso sim. Você tá bem?" 

"Tô sim. Não precisa se preocupar comigo. Foca na Emma."

"Tudo bem." Bradley desligou o telefone e passou a noite em claro.


Quando amanheceu, a médica voltou ao quarto para deixar as receitas dos remédios da Emma e informou que quando a menina acordasse, estaria liberada.

Quando a ruiva acordou, Bradley correu para o seu lado. 

"Como você tá?"

"O que aconteceu?" Emma perguntou confusa. 

"Você desmaiou quando foi levantar da mesa do jantar."

Emma assentiu, assimilando a informação. "E?"

"E eu trouxe você pro hospital. Você tomou soro e passou a noite aqui. Agora já tá liberada. Consegue se levantar?"

"Consigo."

Bradley segurou a mão da garota para ajudá-la a se levantar.

"Acha que consegue andar até o carro?" Bradley perguntou sem soltar sua mão. Ele não iria arriscar que caísse de novo.

"Consigo. Eu tô bem."

"Então vamos."


A viagem de carro foi desconfortavelmente silenciosa, até o professor de estatística quebrar o silêncio.

"Posso te levar pra um lugar antes de ter levar pra tomar café?"

"Pode."

Bradley levou Emma até a um parquinho a 15 minutos dali. Ele andou com ela até um banco, onde os dois sentaram.

Bradley começou a falar olhando em volta do parquinho.

"Eu costumava te trazer aqui quando você era criança. Você tinha uns 5 ou 6 anos e adorava brincar nesses brinquedos." Ele suspirou. Sua memória sendo tomada por diversas lembranças de Emma correndo, ralando o joelho, descendo no escorrega, se lambuzando de sorvete,...

Naquele momento, Emma teve certeza que ele sabia.

"Você amava brincar aqui. Uma vez você fez um escândalo porque eu e sua dinda estávamos muito cansados e negamos te trazer. Você chorou e berrou tanto que a gente acabou cedendo." As lágrimas começaram a deixar os olhos do professor.

"E eu lembro que o seu brinquedo favorito de todos era o balanço. Você gritava: "Mais alto, dindo. Mais alto... Mais alto." Bradley soluçou. "Há quanto tempo você sabe que tá grávida?" O professor se virou para afilhada, fitando seus olhos.


Emma queria chorar também, mas procurou ser forte. "Quase duas semanas."

"E você pensou em esconder isso de mim até quando?"

"Não sei."

"Não sabe?'

"Até não dar mais pra esconder."

"Até não dar mais pra esconder. Entendi. Eu sempre achei que tinha tido uma filha tão inteligente. Eu sempre me gabei pra todo mundo por causa disso. Como é que você foi tão burra de deixar isso acontecer com você? Uma adolescente que nem terminou a escola, grávida de outro adolescente completamente irresponsável."

Uma indagação passou pela cabeça da menina. Contar a verdade ou não?

"O pai não é o Channing." Emma disse hesitante.

"Como assim?" Bradley perguntou ainda mais bravo.

"O pai é o Jonathan." Emma falou de uma vez, como se tivesse puxado um band-aid num só movimento. 

"Jonathan, o inspetor? Jonathan, o alcoólatra? Jonathan, o ex da sua mãe? Jonathan, o cara que não tem onde cair morto? É esse homem que você tem como pai do seu filho? Você é louca? Não acredito que você foi tão burra a esse ponto! Você tá fazendo isso pra atingir a gente? Pra se vingar por eu e sua mãe termos dado você, é por isso? Você quer me ver tendo um troço? Ver sua mãe se cortar até a morte de desgosto? É isso que você quer? ME RESPONDE, EMMA!" Bradley gritou.

"Não, eu não queria." Emma começou a chorar. "Foi um acidente. Eu juro."

"Diga adeus pra os seus queridos paizinhos, porque eles não vão nem querer olhar pra sua cara quando descobrirem. Nem aquele seu irmão. Eu avisei, alertei, orientei, e você nunca escuta! Você sempre quer fazer as coisas pela sua cabeça. Acha que sabe mais do que eu que tenho quase o triplo da sua idade. Tá vendo no que deu? E agora? Qual é o plano?" 

Emma não respondeu.

"Aquele f**** sabe que você tá esperando um filho dele?"

"Sabe."

"Aposto que ele deve tá feliz da vida que ganhou na loteria." Bradley falou debochado.

Emma não respondeu.

"Eu tô muito muito decepcionado com você."

"Eu sei."


Bradley olhou para o rosto triste de Emma e sua raiva foi abrandada, assim como acontecia desde que ela era criança. O professor voltou a sentar ao seu lado e segurou sua mão.

"Eu te amo e não vou deixar nada de mal acontecer com você ou com o meu neto. Não importa o tamanho da raiva que eu esteja sentindo agora."

Emma assentiu.

"Tô preocupado com o seu desmaio. Você precisa se alimentar. Vamos num restaurante tomar café e depois vamos buscar a Elizabeth da casa do Andrew." Os dois levantaram e começaram a andar de volta para o carro. " Me conta como tá sendo os enjoos."

Emma começou a contar como vinha se sentindo e Bradley ouviu tudo com atenção. 


terça-feira, 7 de março de 2023

Cause, I built a home, for you, for me

Desde que se mudara para a casa de seu padrinho, Bradley, Emma passava a maior parte dos seus dias no quarto, ou pedia para Channing visitá-la e dedicava sua atenção somente a ele. Exceto nos dias que Brian estava em casa, nesse caso, sua atenção ia toda ao irmão mais novo. Entretanto, os dias que Channing e Brian não estavam eram solitários. 

Emma gostava quando Jonathan ligava ou mandava mensagem. Ele era um excelente interlocutor, ouvia seus assuntos sobre o mundo da música com atenção, dava os comentários certos nas horas certas e fazia exatamente as perguntas que Emma estava doida para responder. Ela também comentava sobre os assuntos que estava estudando, e mesmo sendo leigo, ele tentava entender o que a menina estava explicando, fazendo comentários, que a menina considerava pertinentes.

Certo dia, Jonathan mandou uma mensagem pedindo para que se encontrassem. Emma disse ao padrinho que visitaria seu namorado. Bradley protestou, porém foi convencido quando sua filha argumentou que eles só se viam caso Channing fosse à sua casa, nunca o contrário.

Emma encontrou Jonathan na saída do metrô de Copacabana. O inspetor deu um selinho ao vê-la. Emma se sentia estranha em cumprimentar dessa forma uma pessoa que não fosse o Channing, afinal, ela era uma infiel com princípios, e certas coisas deviam ser reservadas somente ao namorado.

Jonathan parecia feliz em vê-la. Na verdade, estava animado até demais. Sua postura estava inquieta e com um sorriso largo fixo no rosto.

"Tenho uma supresa!" Jonathan anunciou, segurando as duas mãos da menina.

"Qual?" Emma encarou o rosto do inspetor, à espera da grande novidade.

"Você vai ter que vir comigo."

Jonathan, ainda segurando sua mão esquerda, começou a guiá-la pelas ruas de Copacabana. Outro movimento que fez Emma se sentir mal pelo namorado.

"A surpresa é um lugar?"

"É. E é só isso que eu vou te adiantar."

"Tá bom." Emma não estava mais curiosa. Ela pensou que seria mais um daqueles lugares que teria algum valor sentimental para ele, porém que não significava nada para ela.

"E como tão as coisas na sua casa?" Jonathan mudou de assunto enquanto andavam até o local.

"Na mesma. Quero que o filho da Elizabeth nasça logo pra ele pegar o foco pra ele. Ainda mais agora que o Paquito morreu... Acredita que o meu dindo quase me mandou pro psicólogo?"

"Por quê, se você tá bem?"

"Ele achou que eu fui muito fria. Só porque eu não chorei e dei descarga nele logo depois que eu vi que tava morto."

"Mas você chegou a ficar triste?"

"Não. Ele era só um peixe. Queria matar o Padre-Peixe também."

"Por quê?"

"Sei lá. Não gosto mais dele."

"Dá ele pra mim. Eu cuido dele pra você." Jonathan ofereceu.

"Se você quiser, eu dou mesmo."

Jonathan entrou num edifício com Emma, cumprimentou o porteiro e apertou o botão do elevador. Emma observou ao redor sem entender o que estava acontecendo.

"Você vai me apresentar alguém?" Emma perguntou, desconfiada.

"Minha mãe quer te conhecer." Jonathan mentiu para assustar a menina. 

"Sua mãe não mora aqui." Emma retrucou.

O elevador abriu e Jonathan guiou Emma para dentro.

"Me conta quem a gente veio ver! É uma senhora doando gatos? Eu não quero mais nenhum animal de estimação."

Jonathan riu da especulação da menina.

"Por que eu ia querer te dar um gato? Pra você matar ele que nem você quer fazer com o Padre-Peixe?" Jonathan riu mais ainda.

O terceiro andar chegou e a porta do elevador abriu.

Jonathan segurou a mão da Emma de novo e a levou até uma porta de madeira. O inspetor colocou a mão livre do bolso e tirou uma chave.

"O que tem aí dentro?"

"Você já vai ver, sua impaciente." Jonathan abriu a porta e Emma observou seu interior pelo lado de fora. "Entra." Jonathan a encorajou.

"É um apartamento normal." Emma disse, não muito impressionada com o que estava vendo.

"Ainda bem. Não queria que meu apartamento fosse anormal." Jonathan brincou.

"Seu apartamento?" Emma perguntou, surpresa.

"Sim, meu. Eu finalmente consegui ter dinheiro pra alugar um apartamento e sair da casa dos meus pais. É bem pequeno, mas é tudo novinho e o ponto é ótimo. Perto do metrô." Jonathan falou animado.

"Parabéns!" Emma abraçou o inspetor

"Obrigado." Jonathan agradeceu orgulhoso. "Quer conhecer?"

"Quero."

"Estamos na sala. Aqui do lado é a cozinha. Aqui nesse pedaço é uma área de serviço. Voltamos pra sala. Aqui é o banheiro e aqui é o quarto." Jonathan apresentou todos os cômodos. "O que achou? É muito pequeno, né?"

"Não! O tamanho tá ótimo. Ainda mais que é só você morando."

Jonathan colocou os braços em volta da cintura da menina.

"Eu tava esperando que agora que eu tenho um lugar só pra mim... que você passasse mais tempo comigo." Jonathan disse sedutoramente.

Emma tentou disfarçar a surpresa que estava sentindo, porém sem sucesso. "Uau." A ruiva exclamou.

"Você não quer?" Jonathan perguntou decepcionado.

"Não é isso."

"Então o quê? Você não vive dizendo que não se sente confortável na casa do Bradley? Tá aí a solução. Você passa mais tempo aqui do que na casa dele." Jonathan falou como se fosse simples.

"Não é assim. Meu dindo não vai gostar. E também tem o Channing."

"Que bom que você falou no Channing. Acho que tá na hora de você terminar com ele."

"Você tá louco? Não vou terminar com ele."

Jonathan fitou Emma, perplexo. Por um segundo, ele enxergou Jessica na sua frente. "Você não gosta de mim?"

"Gosto."

"Mas gosta mais do Channing." Não era uma pergunta, mas uma afirmação. Jonathan soltou Emma e foi se sentar no sofá. Os olhos cheios de lágrimas. Ele tirou os óculos e secou.

Emma se ajoelhou em frente ao inspetor e segurou seus braços. "Eu tô traindo ele com você, não tô?"

Jonathan assentiu.

"O que acontece é que você é tecnicamente o ex da minha mãe. Eu ainda tô me acostumando a não problematizar o que a gente tem."

"Tudo bem." Jonathan concordou.

"A gente pode pedir comida pra comemorar seu apartamento novo. O que acha?" Emma tentou mudar o clima.

"Acho ótimo." Jonathan concordou.

"É?" Emma se levantou e sentou no seu colo.

"Sim." Jonathan sorriu, sendo domado pela ruiva e colocando os braços em volta dela.

"Perfeito." Emma beijou Jonathan.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Gêmeos em ação

"Theo, Theo, Theo!" Levi gritou correndo procurando o irmão. Ele disparou para seu quarto, após não encontrá-lo na sala e parou ao lado da porta. "O que você tá fazendo?" Levi perguntou surpreso com o cenário diante de si.

"Não tá vendo? Tô fazendo bigode nas bonecas da Mel." Theo respondeu com uma canetinha preta na mão e uma boneca em outra. Tinham outras bonecas já com bigode desenhado, espalhadas pelo chão.

"Seu idiota! Por que você fez isso? A Mel vai começar a chorar e nossa mãe vai ficar super brava. A gente tem que limpar isso agora." Levi pegou uma boneca do chão e começou a tentar limpar com cuspe.

"E daí? Vai ser muito engraçado quando a Mel vir como as bonecas dela ficaram."

"Minha mãe disse pra gente não mexer com a Mel porque ela não sabe se defender ainda." Levi retrucou, preocupado. "Não tá saindo. A gente vai ter que dar um banho nelas."

"Sabe sim. Ela só finge que não sabe pra continuar sendo a favorita do nosso pai."

"Me escuta, cara." Levi segurou o irmão pelos ombros. "Nossa mãe tá triste. E você estragando as bonecas da Mel só vai deixar ela ainda mais triste."

"Como assim?" Theo falou, perdido. 

"Eu acabei de ver ela chorando no quarto dela."

"E por que ela tá chorando?" Theo perguntou preocupado. 

"Isso eu não sei, irmão. Só sei que ela tá muito muito triste. A gente tem que ajudar a nossa mãe!"

"Mas como?"

"Primeiro a gente tem que tirar os bigodes das bonecas, antes que a Mel chegue em casa e surte. Depois a gente faz um desenho bonitão pra nossa mãe ficar feliz de novo." Levi explicou o plano. 

"Tá bom!" Theo fechou a tampa da canetinha e levantou animado. 

"Abre a torneira da banheira enquanto eu junto as bonecas." 

Theo correu para o banheiro e Levi puxou o lençol da cama, forrou o chão e começou a jogar as bonecas em cima do lençol. 

Depois de alguns minutos, Levi entrou no banheiro arrastando o lençol cheio de bonecas com as duas mãos. 

"Pega o sabão que fica naquele vidro laranja enquanto eu jogo as bonecas na banheira." Levi instruiu o irmão. 

Theo pegou o vidro laranja do armário do banheiro. 

"Assim?" Theo perguntou, ao virar o conteúdo na banheira. 

"Bota mais pra fazer bastante espuma." 

"Tudo bem." Theo entornou o vidro todo na banheira e Levi terminou de colocar as bonecas dentro. 

"Agora a gente deixa elas aí de molho e vamos fazer o desenho pra mamãe." 

Levi e Theo correram para o quarto, e espalharam giz de cera, canetinha e lápis de cor no chão. 

"A gente pode fazer um coração grandão e escrever o nome dela no meio." Theo sugeriu. 

"Boa ideia! Só que a gente não sabe escrever o nome dela." Levi falou pensativo. 

"Qual é o nome da nossa mãe mesmo?" Theo coçou a cabeça.

"É Jessica, seu burro!"

"Ah é!" Theo riu. 

"Vou perguntar pra Siri como se escreve Jessica." Levi pegou o ipad da mesinha. "Siri, como é que se escreve Jessica?" 

"J E S S I C A." Siri respondeu. 

Theo e Levi olharam para o ipad como se Siri tivesse falado grego. 

"É melhor a gente desenhar a cara da mamãe dentro do coração." Theo falou e Levi concordou. 

Depois de vários minutos, o desenho ficou pronto. 

"Será que ela vai gostar?" Theo perguntou inseguro. 

"Acho que é melhor a gente fazer o cabelo dela maior. Me passa o giz laranja." Levi alongou o cabelo no desenho até o final da folha. "Pronto. Agora ela vai gostar." Levi falou orgulhoso.

"Vamos entregar logo!" Theo pulou animado. 

"Tá bom, vamos lá."

Levi e Theo foram até o quarto dos pais e encontraram a mãe deitada na cama chorando contra o travesseiro. 

"Mãe?" Levi chamou intimidado. 

Jessica secou os olhos rapidamente e sentou na cama, forçando um sorriso para seus filhos. "Meninos! Vieram fazer companhia pra mãe de vocês?"

"Você tá triste?" Theo perguntou acanhado. 

"Claro que não. Vêm aqui." Jessica deu um tapinha na cama. 

Os meninos foram até a ruiva, e ela puxou os meninos para cima. "Meus amores." A advogada trouxe os meninos para si e beijou e fungou suas cabeças loiras.

"A gente fez pra você." Theo entregou o desenho. 

Jessica pegou o desenho e deu um grande sorriso. "Que lindo! Essa sou eu?" 

"É. Tem o seu cabelo, viu?" Levi traçou o cabelo laranja do desenho. 

"Tem sim." A ruiva concordou. "Vocês são dois artistas." Jessica beijou as bochechas dos meninos. 

"Eu fiz a maior parte." Theo enunciou. 

"Não fez não!" Levi falou com raiva. 

"Vocês fizeram um gesto tão bonito. Não vão brigar por isso." Jessica advertiu. 

Levi ficou de pé na cama e abraçou seu pescoço possessivamente. "Você se machucou?" Levi tentou afastar o cabelo da mãe para olhar melhor, mas Jessica afastou a mãozinha do menino, gentilmente. "Eu sou meio desastrada."

"Então é por isso que você tava chorando?" Theo perguntou, enrolando o cabelo da ruiva no dedo, com a cabeça deitada no colo dela. 

"Na verdade, eu tô com saudade da Emma." Jessica respondeu com sinceridade. 

"Eu também."

"Também tô." Os gêmeos responderam juntos. 

Jessica sorriu ao ver que os filhos eram apegados à irmã mais velha. 

"Queria ter tido mais tempo sendo mãe dela." Jessica escondeu o rosto que voltava a ficar com lágrimas na barriga de Levi. 

"Não chora, mamãe." Levi abraçou a cabeça da mãe e deu um beijo. 

"Eu amo muito muito muito vocês, sabia?" Jessica começou a fazer cócegas de leve nos filhos, fazendo os meninos gargalharem. 

Mais tarde quando Andrew foi no banheiro depois de ter voltado com as crianças da escola, ele encontrou a banheira cheia de sabão e bonecas bigodudas dentro. 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Cestas

Enquanto Bella secava os pratos, sua mãe lavava os copos. A presença de Renée naquela casa havia mudado bastante a dinâmica que antes funcionava e Bella gostava disso.

“Você sonhou ontem”, constatou a mulher mais velha, enquanto a filha guardava os pratos no armário.

“Não me lembro”.

“Pois eu me lembro. Você me acordou resmungando algumas coisas sem sentido”.



“Desculpa!”, disse Bella voltando ao lado da mãe para secar os copos. Ela odiava falar enquanto dormia, mas parecia que era algo involuntário, que ela não podia controlar. “Falei alguma besteira?”

“Bem… não, não falou!” Renée parou de lavar um copo e segurou-o na bancada ao dizer “Mas você disse um nome”.

A campainha tocou bem no meio do enrugar de testa de Bella.

“Eu atendo!”, falou a mãe indo em direção à porta.

A filha de Charlie não se lembrava do que tinha sonhado no dia anterior, logo não fazia a menor ideia de qual nome teria dito, mas havia sido o suficiente para deixar sua mãe encucada. Dividir a cama com Renée tinha os seus pontos negativos… 

“Bella? Bella?”, gritou a mãe.

Bella foi até a porta e se deparou com sua mãe segurando uma cesta enquanto outra estava no chão. Ela conhecia o estilo daquela cesta, o estilo daquele embrulho. Carpathia. Dexter. 

“É para o seu pai”.

“Veio com cartão?”

“Sim! Está escrito: ‘Para Charlie Swan, com os votos de uma excelente recuperação, Dexter e família’”.



“Dexter é o menino que estava dividindo o quarto com Charlie. Ele é da minha escola”, resolveu falar Bella antes que a mãe chegasse a conclusões precipitadas.

“Eu me lembro dele! Pobrezinho, caiu da escada”.

“É!”

Na verdade, ele tinha sido empurrado, mas não valia a pena mencionar esse detalhe.

“E essa cesta que está no chão? Também é para o Charlie? É bem pesada!”

Bella olhou para a cesta que estava no chão. Diferentemente da que a sua mãe segurava e agora levava para a mesa da sala, aquela não era da Carpathia. O papel celofane escuro a impedia de ver o que tinha dentro. Ela se agachou para ver melhor a cesta e viu um cartãozinho escrito “Bella”. Ela segurou as pontas da cesta, que tinha um formato retangular e pareciam ser de madeira, para levar até o seu quarto, mas o peso era tanto que ela desistiu.

“Parece que tem pedaços de um homem morto aí dentro”, disse Renee ao lado de Bella. “Abra, meu amor!”, incentivou a mãe, ao notar a inércia da filha.

Bella relutantemente soltou o laço e retirou o celofane que encapava a cesta. Não queria abri-la na frente de sua mãe, mas se viu sem escolha. Quando retirou o papel, se deparou com uma caixa de madeira bem talhada, cheia de embrulhos transparentes contendo livros e outras coisas dentro. Ela pegou o primeiro embrulho, que tinha uma versão linda de Robinson Crusoé, de Defoe, com marca-páginas inspirados na obra e um pequeno livrinho que contava a história do autor. O outro era Persuasão, de Jane Austen, que vinha também com mais marca-páginas, uma ecobag e uma réplica da carta que Wentworth havia escrito à Anne declarando os seus sentimentos. Além disso, ela ganhou uma versão de Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, Moby Dick, de Herman Melville, Um par de olhos azuis, de Thomas Hardy, Entre os atos, de Virgínia Woolf, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, e O professor, de Charlotte Brontë. Todas essas obras vinham com mimos, como bússola, relógio de mão, um diário lindíssimo de couro, um pequeno quadro etc. Bella olhava tudo com muito espanto, quando percebeu que havia um envelope com uma carta e seu nome nele. Ela o pegou rapidamente e escondeu de sua mãe, que de 5 em 5 segundos soltava exclamações como “Minha nossa!” ou “Mas para que tudo isso?!”

“Bella”, ela segurou a filha pelos ombros para que as duas pudessem se encarar. “Acho que esse menino gosta de você!”



“Nada a ver!”, comentou Bella se desvencilhando. “Bem, preciso ir ao banheiro!”, disse a garota correndo escada acima.

“Depois você vai me falar mais desse menino, Bella! Eu quero saber de tudo!”, gritou Renée categoricamente.



Bella se trancou no banheiro praguejando. Maldito fosse o Dexter por mandar aquelas coisas para a sua casa! É claro que quem quer que testemunhasse aquela profusão de presentes iria estranhar e querer saber o que estava acontecendo. Por sorte, seu pai dormia, mas em algum momento, sua mãe contaria tudo para ele, a menos que Bella pedisse que ela não o fizesse. É, ela teria que pedir isso à sua mãe. 

Ela tirou o envelope que estava escondido atrás de seu corpo, abriu-o e começou a ler. As letras estavam trêmulas. Depois da cirurgia, Dexter estava apresentando dificuldades para fazer tarefas simples, como andar, escrever etc. Felizmente, disseram que com a fisioterapia, estaria desempenhando tais atividades como antes.

A carta dizia:


Bella, 

Primeiramente, muito obrigado mais uma vez pela cesta. Eu pude olhar depois com mais calma cada coisa que tinha e fiquei muito emocionado pelo gesto. A verdade é que tenho me sentindo muito sozinho desde o acidente. Pode parecer bobo, mas eu esperava que receberia visitas até não aguentar mais. Meus pais também acharam isso, porque restringiram a entrada das pessoas só para a família. Eles disseram que os meus amigos não me deixariam descansar. Como você bem sabe, nenhum apareceu, só a Megan, que não voltou depois, e o Drake, que parecia sentir culpa. Não acredito que ele tenha me empurrado, mas ainda desconfio que ele tenha sido o mandante, vai saber? De qualquer forma, a sua companhia me ajudou muito. Eu sei que antes você estava acompanhando o seu pai, mas você voltou mesmo com o seu pai não estando mais internado e isso significou muito para mim. A verdade é que você tem me ajudado bastante nesse processo. Pensar em você tem me ajudado a não ter mais enxaqueca. 

Espero que você goste do presente. Não representa metade do que você fez por mim. E não se preocupe, comprei numa loja chamada White Star Line. Os livros custaram uma bagatela: R$149,90. E tem desconto no mês de aniversário. Espero que você goste das leituras. Imagino que a maioria dos livros seja repetidos, mas podem ficar para a sua coleção.


Seu,

Dexter


Obs.: decidi ir de tio Chico para a festa de Carnaval do hospital. Te espero lá!


Ao fim da leitura, Bella afundou, assim como o Titanic. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Cidadania, baseado e escada

Marinette, era uma mulher que Vincent e Cheryl estavam ajudando a fazer doces para venda, fruto do projeto da aula cujo tema era cidadania. Marinette pegou a vassoura e começou a varrer em direção a Cheryl e Vincent, expulsando eles de casa. 

"Saiam daqui e levem essa joça pra fora da minha casa." Marinette resmungou, brava. 

"Tá bom, tá bom. A gente já tá saindo." Vincent levantou as mãos em rendição. 

"Podemos só pegar o..." Cheryl apontou para a caixa de fósforo em cima do sofá. 

"Peguem e sumam daqui. Não quero ver nenhum dos dois hoje na minha casa."

Cheryl pegou rapidamente a caixa de fósforo do sofá e colocou no bolso do short. "Então até amanhã." A Geordie deu um beijo no rosto de Marinette. 

"Até, filha."

"Amanhã a gente passa aqui depois da escola." Vincent informou. 

"Vou tá esperando. Mas sem essa geringonça, hein!" Marinette advertiu. 

"Pode deixar." Vincent e Cheryl responderam juntos e saíram da casa de Marinette. 

"Você disse que ela não sabia o cheiro." Cheryl reclamou descendo a escadaria que ligava a rua ao sobrado. 

"É. Acho que subestimei ela." Vincent foi descendo logo atrás. "Quer terminar aqui?" 

"Tá bom." A inglesa tirou o fósforo do bolso e tentou acender o baseado na boca do Vincent, mas o fogo apagou rapidamente. 

"Você tem que acender mais de perto pra não dar tempo de apagar até chegar aqui." Vincent instruiu a menina. 

"Você tá muito alto. Abaixa a cabeça."

Vincent abaixou a cabeça e a Geordie tentou de novo, dessa vez sendo bem-sucedida na tarefa. Vincent deu um tragou e passou o baseado para a Cheryl. A menina colocou o baseado na boca e sentou no degrau, apoiando as costas na parede e esticando as pernas até os pés encostarem na outra parede. Vincent fez o mesmo, mas do lado contrário, de modo que um ficou de frente para o outro. 

Cheryl inalou a fumaça, encostou a cabeça na parede e fechou os olhos. A menina estava pensativa e Vincent precisava saber o motivo. 

"O que que tá pegando?" Vincent cutucou a perna da britânica com o pé. 

"Você acha que o Edward pode ainda gostar da Bella?" Cheryl abriu os olhos e fitou o amigo. 

"Você tá com ciúmes?" Vincent puxou o baseado dos dedos da menina. 

Cheryl deu de ombros. "Não posso competir com o que tá escrito nas estrelas. Sei lá, me sinto o Miguel."

"Miguel Arango? Acho que você é menos raivosa. Ele era muito abusivo." Vincent refletiu. 

"Que Miguel Arango, seu idiota! Tô falando do Miguel do Jack e da Rebecca."

"Tá falando de this is us?" Vincent perguntou confuso. 

"Sim! Jack e Rebecca tava escrito nas estrelas. O Miguel nunca conseguiu passar de um rebound pra Rebecca."

"Você e o Edward não vão durar muito tempo, então tanto faz."

Cheryl ficou de boca aberta. "Você não sabe disso." 

"Pior que eu sei. E outra, se ele te trocar pela Bella, é porque ele não te merece, e por que sofrer por quem não te merece?" 

Cheryl não respondeu, só ficou fitando o próprio tênis. 

Vincent olhou para a menina e percebeu a tristeza nos seus olhos. "Me conta. Por que você acha que ele pode ter sentimentos pela Bella?"

"Senti que ele ficou afetado pelo que aconteceu com o pai dela. E sei lá, parece que tá todo mundo shippando eles de novo." Cheryl explicou. 

"Isso não quer dizer nada."

"É, pode ser que não." Cheryl deu outra tragada e deixou a fumaça inundar seus pulmões, trazendo uma sensação estranha de bem-estar. 

"Ei." Vincent chutou seu braço de leve. "Se o Edward quisesse tá com a Bella, ele já estaria há muito tempo. Ele teve todo o tempo do mundo pra tentar voltar com ela e não fez nada. Pelo contrário. Namorou a Katie, saiu com a Khaleesi, namorou a Zoe e sabe sei lá mais quem. E só agora que tá com você que ele ia redescobrir os sentimentos por ela? Não faz muito sentido."

"O pai dela não tinha infartado antes!"

"Grande coisa que ele infartou. Pessoas infartam todos os dias e continuam vivas. O cara é magro e da polícia.Tenho certeza que ele vai ficar bem."

"Ele tá super em forma, né? Como será que isso aconteceu."

"Também não sei. Esses caras da polícia treinam que nem loucos pra terem fôlego em caso de perseguição ou coisa do tipo."

"Estranho." Cheryl concluiu. 

Os dois ficaram fumando em silêncio por alguns minutos, passando o baseado de um para o outro. 

"Não queria ser a garota da calcinha." Cheryl tacou uma pedrinha na parede com raiva. 

Vincent gargalhou. "É por isso que eu não namoro ninguém que já teve histórias épicas."

"Você namorou a Lana! Ela e o Clark foram épicos!" 

"Não foram não."

"Foram sim."

"Não foram não."

"Foram sim!" 

"Eles namorarm quando eram muito crianças. Ninguém leva namoro de criança a sério." Vincent argumentou. 

"De alguma forma, acho ainda mais forte."

"Cala a boca." Vincent falou visivelmente irritado. 

"Desculpa."

"Tudo bem."

"Vem, vamos embora." Vincent levantou e estendeu as mãos para ajudar a Geordie a se levantar. 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Inception

 Edward estava enrolando o cabelo de Cheryl pensativo, quando a Georgie interrompeu seus fluxos de consciência e perguntou: 

“What are you thinking of?”

“That I like it when your hair is red”.

“But me hair isn't red now”, disse a garota desconfiada.

“No, it isn’t”, ele constatou com uma cara séria e brincalhona ao mesmo tempo. 

“You know what I think?”, ela se virou agora totalmente em direção a ele. “I think you're lying”.

“Why would I lie to you?”

Edward sabia qual era a desconfiança dela, mas não poderia simplesmente adivinhar, pois deixaria tudo muito suspeito. Pareceria que ela estava certa.

“I don’t know”, ela colocou os braços ao redor do pescoço dele. “But people do that”. 

Ele não podia dizer que com ele era diferente, porque, de fato, mentia para ela naquele momento.

“People are idiots!”, respondeu o vampiro, colocando as mãos ao redor da cintura da namorada. Sabia que aquela resposta não fazia sentindo algum, mas não queria mentir mais uma vez para a Georgie. Ele aproximou os lábios do dela e os dois se beijaram ternamente, algo que estava se tornando mais comum entre os dois, o que, para Edward, era ótimo e péssimo.


Assim que se separaram, ela o encarou com seus puppy eyes, analisando-o. 

“You look sad, pet. Actually, you've been looking sad for a while”, ela falou séria.

“Say what you’re really thinking. Say that I'm sad since Bella's father had a heart attack”, pensou ele.



“I am sad”, ele aproximou o nariz do dela encostando-os e movendo de um lado para o outro.

“Tell me what’s going on”.

Vamos pôr alguns pingos nos is. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com Charlie e Bella, nunca teve. De fato, ele tinha ficado preocupado com a situação, mas era uma preocupação de amizade. Ele sempre se preocuparia com Bella. Não que os outros precisassem saber. Ou a própria Bella. Era melhor do jeito que estava para que não houvessem especulações. Por acaso ele cogitou ficar alerta para transformar Charlie em vampiro caso algo de pior acontecesse? Carlisle o chamou de louco. Disse que não poderiam transformar todo mundo que eles conhecessem só porque corriam risco de vida. A morte era inevitável e natural. 

“Você quis transformar a Katie”.



“Eu quis assustar a Katie, é diferente. Ela não estava cuidando da própria saúde”.

“Carlisle, eu leio mentes. Se ela estivesse morrendo daquela vez, você transformaria ela. Se ela estivesse morrendo hoje”, frisou Edward, ‘você transformaria ela”.

“Eu não precisaria fazer isso, você já teria feito antes”.

“A casa inteira já teria feito isso antes”.

“O que prova que a Katie é muito diferente do Charlie”.

“Eu não preciso mentir pra você, Carlisle. Você sabe que eu não estou pensando no Charlie”.



“Bella tem a mãe, Edward. Não é como se ela fosse ficar sozinha no mundo. Sem contar que nem sabemos se a Bella gostaria dessa ideia”.

“Nem a Katie e ainda assim ela não tem livre arbítrio algum. Ninguém ligaria se ela dissesse que não”.

Foi um flash. Tudo muito rápido. Carlisle era bom de esconder seus pensamentos de Edward, pelo menos os mais importantes. Mas Edward também era um bom leitor de mentes, nada passava despercebido por ele.

“Você vai transformar a Katie?”

“Eu vou oferecer à Katie essa opção”.

“Ela está viva”.

“Não consigo mais viver sem ela”.

Edward ficou quieto. Ele também não conseguia mais viver sem ela. Mas condenar a alma de Katie, isso era complicado. Mas viver sem a Katie, mais complicado ainda. Se ela morresse, ele morreria e, pelo visto, Carlisle também.

“E se ela não aceitar?”

“Não seria para agora, Edward. É para um futuro. Quero que a Katie aproveite o pai, tenha uma vida, filhos, se ela conseguir tê-los”.

“Se a Katie tiver filhos, ela não vai querer viver pra sempre sem eles”.

“Eu sei, eu sei! Daí eu teria que respeitar a decisão dela, mas, por agora, pelo o que sabemos, ela é estéril”.

“E o marido dela?”

“Você pode ser o marido dela!”

Carlisle estava muito, mas muito louco.

“Com 7 anos? Ela e as pessoas aceitariam muito bem isso”.

“Agora com a tecnologia do Jorge, podemos aparentar qualquer idade. Você envelheceria e ficaria da idade dela”.

“Carlisle, você não pode estar falando sério!”

“Você ama a Katie!”

“Eu amo a Cheryl!”



Carlisle pareceu ficar surpreso por um momento, mas depois se recompôs.

“Já falou isso pra ela?”

“Já”.

“E ela?”

“Quando as pessoas da idade dela dizem ‘Eu te amo’ não é como se elas tivessem a mesma consciência que nós temos. E ela certamente amou mais o Tom, o Vincent, o Sebastian e até mesmo o Niall mais do que eu”.

Uma piada rápida passou pela cabeça de Carlisle, o que deixou Edward com ódio. Carlisle estava realmente descuidado naquele dia.

“Então você realmente está amando a Cheryl?”

Edward suspirou. Não queria se abrir sobre os seus sentimentos, mas sentia que estava explodindo e a melhor pessoa para desabafar sobre era o Carlisle.

“Muito”, ele fez uma careta. “O quão idiota eu sou?”

“É bom amar, Edward!”

“Eu amo para perder. Me imbrico nas pessoas, a gente termina, elas seguem as vidas e eu fico ali, arruinado, remoendo tudo até ter reaproveitado todo o possível e mais um pouco”.

“Você acha que esse é o caso da Cheryl também?”

Edward assentiu sem graça. “Você acredita que um dia eu quase falei: ‘Cheryl, eu quero ser seu príncipe’ e ‘Queria comer o seu cabelo’?”.



“Eu não diria a do cabelo”.

“Eu sei que eu sou estranho, mas ela não precisa saber. Sabe? Às vezes eu queria nunca ter namorado com ela. Menos estresse”.

“Amar é bom, Edward. Nem todo mundo tem esse privilégio”.

“Ela nunca vai me amar como eu a amo. Ninguém nunca me ama como eu amo”.

“Katie quase morreu por causa do seu relógio”.

“E eu morreria por um fio de cabelo dela, Carlisle, sabendo pelo o que eu estava morrendo. Ela foi inconsequente, era mais nova, não sabia direito a seriedade daquilo”.

“Acho que a primeira facada deu uma ideia a ela”.

“Se ela morresse naquele dia, eu já estaria morto no dia seguinte”.



“Você seria feliz se ela fosse a sua esposa”, constatou Carlisle para provar o seu ponto.

“Mas ela não, o que me deixaria infeliz”, falou Edward com dificuldade. “A verdade é que a Katie não é uma pessoa que seria feliz com um ‘para sempre’. Pessoas como ela gostariam de morrer. Ela…”, aquilo era difícil. Edward odiava aquela sensação horrível de choro preso que nunca sairia. “Ela precisa reencontrar a mãe”.

Dessa vez Carlisle ficou em silêncio.

“Acho que nos apegamos demais a essas pessoas”, disse o professor quebrando o silêncio.

Aquele era o momento pelo qual Edward estava esperando. Aquela era a hora de dar voz ao que estava martelando na sua cabeça há um tempo.

“Carlisle, por que não morremos? Por que não tornamos essa a nossa última vez? Aproveitamos a máquina do Jorge, aproveitamos a chance de envelhecermos que nos foi negada e quando chegar a idade certa, vamos todos juntos aos Volturi?”

“Eu amo vocês, Edward. Não posso pensar numa vida em que eu perco a todos propositadamente, ver meus filhos morrerem, a mulher da minha vida… Aliás, não acho que aqui seja o momento ou a hora apropriada de falarmos dessas coisas. Eu preciso voltar a trabalhar logo, logo”.



“Está bem!”

O psicólogo estava preocupado. Edward era impulsivo. Era bem capaz dele já ter chegado a resolução de que aqueles seriam seus últimos anos. Provavelmente, acabaria depois do último suspiro de Katie ou de Bella. Agora tinha a Cheryl também, mas o quão longe tinha chegado aquela paixão? Será que era tão forte como as outras? Carlisle duvidava, mas vai que… O professor deixaria o assunto passar no momento. Ainda tinha um bom tempo para convencer Edward do contrário. Se acontecesse algo com Edward e com Katie, Carlisle não aguentaria, o que acabaria condenando Esme. Os outros sobreviveriam sem eles, mas não seriam os mesmos. Ele decidiu espantar o assunto. Não queria mais aquelas agruras no momento. 

Tudo aquilo havia acontecido há pouco tempo e tinham ocupado a cabeça de Edward durante alguns dias, mas naquele momento com Cheryl, tudo o que ocupava sua mente eram os sentimentos que nutria pela Georgie e o quanto eles estavam aumentando e o quanto isso era perigoso para ele.

“Pet”, disse Edward resoluto, “I want to be your prince for your 15th birthday”.