segunda-feira, 25 de abril de 2022

O estagiário

Quando disseram que ele não teria tratamento diferenciado, não estavam brincando. Thiago desceu para o almoxarifado e colocou as resmas de folha ofício numa caixa de papelão para levar para cima. 

A caixa estava pesada e o fato dele ter malhado até a exaustão os bíceps no dia anterior, não estava ajudando. Ele apertou o botão do elevador com dificuldade e aguardou a sua chegada. As portas abriram automaticamente e o menino pressionou com o cotovelo o botão para o quinto andar. Enquanto aguardava, o elevador abriu no terceiro andar. Mônica (a advogada que pegou todos os casos que estavam nas mãos de Jessica e a mais nova braço-direito de George), se afastou abruptamente de George e passou a mão no cabelo, colocando uma mecha atrás da orelha, antes de entrar no elevador. George entrou logo em seguida. Thiago cumprimentou os dois com um aceno de cabeça e olhou para o lado oposto. 

Todo mundo da empresa comentava o novo affair dos dois, apesar deles acharem que estavam sendo discretos. Quando o elevador parou no quinto andar, George e Mônica saíram primeiro e Thiago foi atrás. Ele colocou a caixa com as resmas em cima da mesa da secretária para dar uma descansada nos braços.

"Eles são um casal?" A secretária perguntou, ao ver George entrando na sala de Mônica.

"É o que dizem." Thiago retrucou.

"Eu sabia que o doutor ia acabar pegando ela."

"Ele não perdeu tempo mesmo."

"A sorte dele é que a doutora não tá aqui. Ela nunca ia deixar isso acontecer."

"Não acho que é uma coisa que ela conseguiria evitar."

"Vai por mim... quando a doutora voltar, já viu."

"Ela tem ciúmes dele, né?"

"Não sei se exatamente dele. Acho mais que ela tem ciúmes de qualquer mulher que chame mais atenção do que ela."

"A Mônica é bem bonita mesmo. Mas a Jessica é ruiva. As ruivas sempre acabam chamando mais atenção."

"É. Mas o estilo da doutora Mônica faz mais o do chefe."

"Tão falando do que, vocês dois?" Jefferson se aproximou com seu jeito afetado.

"Do George com a Mônica." Thiago respondeu.

"Esses dois tão pegando fogo. A Carina do financeiro disse que já viu várias vezes eles chegando juntos."

"O chefe é muito mulherengo. Se eu fosse a doutora Mônica, cairia fora." Falou a secretária.

"Mas a doutora Mônica tem cara de que gosta desse tipo de homem. Quem shippa o papai com a mamãe que ficou triste." Jefferson colocou a mão na cintura e inclinou o quadril. 

"O povo que shippa isso é doido." A secretária rebateu.

"Eu shippava! Pena que a mamãe casou e acabou com o ship" Jefferson falou.

"Eu gostei dela ter casado porque aí ela teve um montão de filho e ficou pra lá. Melhor do que tá aqui acabando com a nossa sanidade."

"Isso é verdade!" Jefferson riu. "A mamãe é bravíssima!" 

"Ainda não tive a chance de trabalhar com Jessica. Só uma vez que tive que ir na casa dela, mas ela tava normal." Thiago falou. 

"Tem dias que ela até que tá agradável, mas é raro." Jefferson retrucou. 

"Quem vocês acham pior a Jessica ou o George? Eu acho o George maior antipático." Thiago perguntou aos dois. 

"A doutora." A secretária respondeu de imediato. 

"Os dois são péssimos, mas a mamãe é um pouco pior. O papai, também, fica menos estressado quando a mamãe tá aqui. Ela meio que neutraliza o estresse dele."

"Acho que sou o único daqui que simpatiza com a Jessica." Thiago concluiu. 

"Sim!" A secretária respondeu de forma enfática.

"É difícil trabalhar pra ela e gostar dela ao mesmo tempo. Mas reza a lenda que ela até que é decente em casa." Jefferson disse.

"Não acredito não. Lembra de quando aquele marido dela veio aqui p*** da vida?" A secretária recordou.

"Como não lembrar de um acontecimento desse?" Jefferson riu.

"Não acho a Jessica tão ruim assim." Thiago tirou a caixa com as resmas de cima da mesa.

"Você diz isso agora. Espera pra ver." A secretária retrucou.

Thiago deu de ombros. "Vou indo lá abastecer as impressoras."

No final do expediente, Thiago ligou para sua namorada,

"Tô saindo do estágio agora. Quer sair pra comer alguma coisa?"

"Adoraria, mas é que vou tá ocupada." Shailene respondeu.

"Ocupada com o quê?"

"A mãe do Ansel me ligou. Disse que não sabe o que tá acontecendo com ele. Que ele tá diferente. Triste."

"E você pretende fazer o quê?" Thiago perguntou impaciente.

"Eu falei com a Cheryl e a gente vai assistir um filme na casa dele. Pra dar uma animada, sabe?"

"Eu sei que você sempre foi amiga do Ansel, mas não acho bom você continuar frequentando a casa dele. Ele tá mais pra culpado do que inocente."

"Ele não fez, tá?"

"Você não sabe disso."

"Sei sim."

"Não, não sabe."

"Tudo bem. Não quero mais discutir sobre isso pela milésima vez. A gente se vê amanhã."

"Tá bom. Se cuida."

"Você também."

Shailene desligou e Thiago foi para casa fazer a lição de casa. 

domingo, 10 de abril de 2022

Pare, pense e fique quieto

Se ele tivesse refletido só um pouquinho...


“Asaaaaaaa, feliz aniversário!”, disse Eric animado ao ver o amigo. 

“Valeu!”, respondeu o filho de Andrew timidamente.

“Quanto tempo sem vir pra escola. Tava ficando preocupado.”

“Desculpa não ter te ligado pra contar nada. Esses dias foram uma loucura!”

“Mas não vamos pensar nisso hoje. Hoje é o seu aniversário, dia da gente só falar de coisa boa, ou seja, da Nicola!”, Eric riu alto com a piada que fez.


“Nossa, eu tenho que falar com a Nic. Eu sumi.”, falou preocupado, ignorando a piada sem graça de Eric.

“Depois, amigo, depois! Até porque eu tenho que te dar o se...”

“Mãe piranha", disse uma voz imitando a de um papagaio.

Asa e Eric viram Adam rindo ao lado de Bob enquanto passavam.


“Não dá ouvido a eles... Asa! Não!”

O sangue de Asa estava fervendo. Ele deveria ter pensado que era uma ideia estúpida e que sua atitude, na verdade, chamaria mais atenção para o que estava acontecendo com sua família no momento; deveria ter pensado que há pouquíssimo tempo sua irmã havia sido suspensa por violência; deveria ter pensado que isso traria mais problemas para a sua mãe e que serviria de mau exemplo para a irmã; deveria ter pensado que era o dia de seu aniversário; deveria ter pensado que estavam dentro da escola; e por último, mas não menos importante, deveria ter pensado que ele era fraco, ao contrário de Adam.

O soco de Asa não fez tanto estrago em Adam, apesar de ter tirado um pouco de sangue de nariz do garoto, algo que Asa constatou com orgulho, mas o soco que recebeu de volta diretamente concentrado no seu olho doeu. Ah se doeu.

Começou uma algazarra. Gritos de “briga, briga, briga". Quando viu, estava sentado na sala da diretora ouvindo um sermão. Expulso por 3 dias. Um dia a mais do que Crystall. Eles se tornaram os irmãos complicados.

Se ele tivesse refletido só um pouquinho...

sábado, 9 de abril de 2022

Noite difícil

A noite estava o caos. Jessica tinha acabado de dar o remédio ao Levi e agora tentava fazê-lo parar de chorar. Emma colocou o fone de ouvido para abafar o som e voltou aos seus cálculos de química. 

Mel estava no chão com uma borracha na boca.

"Mel, tira isso da boca!" Jessica gritou com a menina e abaixou com o Levi no colo para tirar a borracha da boca da filha. "Zendaya e Emma!" Jessica gritou entre os berros de Levi e o choro de Mel. 

Andrew entrou na sala com o Theo no colo e a camisa molhada. 

"O que tá acontecendo?" 

"A Emma ou a Zendaya deixou essa borracha no chão e a Mel tava com ela na boca." A ruiva falou estressada. 

"Deve ter caído sem elas verem." Andrew retrucou. 

"Mas isso não pode acontecer! Elas tem que ter cuidado com essas coisas porque tudo a Mel tá colocando na boca." Jessica respondeu enquanto embalava Levi pra ele parar de chorar. "Zendaya e Emma!" Ela gritou mais uma vez. 

"O quê?" Zendaya falou, chegando na sala. 

"Essa borracha é sua?" Jessica estendeu a borracha que ainda estava na sua mão. 

"Não, por quê?" 

"A Mel tava com ela na boca. Imagina se ela fosse menor e a Mel tivesse engolido?"

Zendaya preferiu não falar nada pra não prejudicar a Emma. 

"Emma!" Jessica se aproximou da menina que estava sentada na mesa e tirou o fone da cabeça dela. "Você fica com esse fone no ouvido e não escuta nada!" 

"Claro! Como você quer que eu estude com esse barulho todo?" 

"Essa borracha é sua?" Jessica colocou a borracha na mesa. 

"É, por quê?" 

"Sabia que a sua irmã tava com ela na boca? Quantas vezes eu já falei pra ter cuidado com essas coisas? Que se deixar elas no chão a Mel vai pegar e colocar na boca. Quantas vezes?" 

"Eu não vi cair." Emma se defendeu. 

"Não, Emma. Não existe essa resposta que você não viu cair. Você tem que ver cair porque você tem uma irmã mais nova que pode pegar essas coisas e se engasgar com elas."

"Desculpa."

"Infelizmente, Emma, dessa vez desculpa não resolve. Você tá de castigo."

"O quê?" Emma falou indignada. 

"Você ouviu. De castigo."

"Que injusto!" Emma fechou o caderno vom força e se levantou da mesa com raiva. Quando ela foi sair, Jessica segurou seu braço. 

"Antes de sair, recolhe as suas coisas e vê se não deixou nada pelo chão."

Emma puxou o braço de volta e começou a guardar as coisas em silêncio. 

Jessica pensou em falar mais alguma coisa, mas achou melhor fazer Levi parar de chorar primeiro. 

Mais tarde naquela noite, Jessica e Andrew colocaram os bebês para dormir e saíram do quarto deles tentando não fazer barulho.

"Você parece muito cansada. Quer que eu faça uma massagem?" Andrew ofereceu quando chegaram no quarto. Ele segurou sua cintura e beijou seus lábios. 

"Primeiro eu pareço inchada e agora cansada. Tem certeza que você ainda me acha atraente?" Jessica brincou colocando os braços em volta do pescoço do professor. 

"Deixa eu ver..." Ele passou o nariz pelo rosto da ruiva, sentindo sua essência e depois colou a boca no seu ouvido. "Sim, muito." 

Jessica abriu os olhos, que tinham se fechado com as ações do marido, se sentindo, de repente, ultra sensível. 

"Acho melhor eu recusar a massagem, pra evitar que outras coisas aconteçam."

"Minha massagem vai ser extremamente profissional."

"Eu sei que sim. Mas é que também você tá com essa cara de safado e eu não vou conseguir resistir."

"Cara de safado?" 

"Isso mesmo." Jessica deu um selinho no marido e saiu dos seus braços. "Vou no quarto das meninas desejar boa noite."

 Primeiro ela foi para o quarto da Zendaya

"Já tá indo dormir?" Jessica perguntou ao entrar no quarto. 

"Já. Melhor aproveitar os momentos de silêncio." Zendaya brincou. 

"É melhor mesmo." Jessica riu. Ela sentou perto da menina e tocou seu rosto. "Fico preocupada de você tá se sentindo negligenciada. Eu sei que muita da minha atenção e a do seu pai vai para os seus irmãos."

"Não, Jessica. Não me sinto assim."

"Que bom. Mas você fala pra mim caso comece a se sentir assim? Eu não quero ser como aqueles pais que só dão atenção aos filhos mais novos e negligenciam os mais velhos. Não que eu seja sua mãe, mas você sabe... Eu tenho um carinho muito grande por você." Jessica colocou o cabelo da menina atrás da orelha. "Eu não sei se você acredita quando eu falo isso, mas eu realmente acho que você foi um presente para as nossas vidas."

"Vocês também na minha."

Jessica sorriu. "Fico feliz em ouvir isso. Agora, boa noite!" Ela abaixou e deu um beijo na testa de Zendaya. 

Ao sair do quarto da filha do Andrew, foi para o quarto de Emma. Ela bateu na porta e entrou, em seguida. 

Emma estava com a cabeça deitada na mesa, olhando para Paquisto. 

"Não vai dormir?" Jessica massageou as costas da menina com uma mão. 

"Depois." Emma respondeu ainda olhando para Paquito. 

"Em, desculpa ter gritado com você por causa da borracha. Eu sei que foi um acidente. Você não tá de castigo."

Emma permaneceu quieta. 

"É que eu tenho tanto medo de acontecer alguma coisa com um de vocês enquanto eu não tô olhando. Eu acabei descontando em você uma insegurança que é minha. Me perdoa?"

"Eu realmente não vi a borracha cair." Emma levantou a cabeça da mesa e se virou para a dinda. 

"Eu sei, meu amor."

"Vou ficar mais atenta a partir de agora."

"Eu agradeço. E o que você e o Paquito acham de dormir agora? Já tá tarde e temos que aproveitar o momento raro de silêncio."

"Tá bom." Emma concordou. 

"Vai escovar os dentes que eu vou tá te esperando aqui pra gente orar." Jessica se sentou na cama da Emma para esperar a menina enquanto ela foi para o banheiro escovar os dentes.

O dia que tinha começado difícil terminou de forma bem agradável. 

quarta-feira, 30 de março de 2022

What's Going On?


Algo tinha acontecido, disso Asa tinha certeza.

Ele pensava isso, enquanto roía as unhas, esperando a diretora chamá-lo para a sua sala.

Certamente, ela tinha mudado e ele era um dos responsáveis por essa mudança, mas nada que...

“Asa, eu não tenho nada pra falar com você.”, disse Elizabeth, enquanto saía da sala acompanhada por uma Tabatha choramingando.

“Mas ela é minha irmã!”, Asa protestou, seguindo a diretora.

“Exatamente, ela é sua irmã, não sua filha.”, falou a diretora dando ênfase nas palavras “irmã” e “filha”.

“Eu me sinto responsável por ela do mesmo jeito.”

“Eu já falei com a sua mãe.”

Droga!

“Ela foi suspensa?”

“Por dois dias.”

“Dois dias? Mas ela é uma criança! Qualquer criança puxa o cabelo da outra. Aposto que a Tabatha provocou.” A menina e a diretora fuzilaram o garoto com os olhos. “Eu só to querendo dizer que a Crystall não é uma pessoa agressiva”.

“Vanessa, você pode levar a Tabatha até o banheiro e lavar o rosto dela?”

“Posso. Vamos, linda!”

“Asa”, Elizabeth se virou para ele, “sua irmã não só puxou o cabelo da Tabatha. Ela disse coisas muito feias também.”

“Crianças chamam a outra de feia, burra.”

“Você sabe que a sua irmã não é como as outras crianças. E outra: ela não chamou a Tabatha de feia ou de burra. Ela falou palavrão.”

Asa bugou. Crystall não falava palavrão.

“Mas a Crystall não fala palavrão.”

“Acontece que dessa vez ela falou.”

“Eu não acredito.”

“Asa, ta nas câmeras.”

Então Crystall realmente havia dito palavrão.

“Asa, aconteceu alguma coisa na casa de vocês? A Crystall ta... diferente.”

Havia acontecido, mas Asa não fazia a menor ideia do que.

“Não que eu saiba.”

“Tudo bem. Eu vou conversar com a sua mãe.”

“Posso falar com ela?”

“Com a sua mãe?”

“Não. Com a Crystall.”

“Melhor não, Asa. Não é porque você é filho de um professor que pode ter regalias aqui.”

“Ok. Eu falo com ela depois.”

“Melhor.”

O garoto saiu derrotado. Crystall estava mais diferente do que o normal. Aquele novo eu dela que as pessoas achavam, Asa já estava acostumado. Essa última versão que agora o assustava.

“E aí?”, perguntou Eric curioso.

Asa balançou a cabeça negativamente.

“Será que o seu pai não consegue descobrir alguma coisa pra você?”

“Acho que não tem o que descobrir. Ela bateu na garota e, pelo que parece, até xingou. O que eu quero descobrir, meu pai nunca vai conseguir. Sem contar que é melhor deixar ele de fora dessas questões que envolvem filhas da minha mãe. Não quero ele com problemas no casamento de novo.”

“Verdade.”

“Quando eu chegar em casa, vou falar com ela.”

“Será que ela vai te falar alguma coisa? Você já tentou outras vezes e ela não falou nada.”

‘Dessa vez eu vou insistir.”

“Sua mãe vai matar ela.”

“Vai.”

As aulas acabaram e Asa voltou para casa. Chegando lá, não viu sua mãe.

‘Rita, onde ta a minha mãe?”

“Ta no quarto dela.”

“E a Crystall?”

“Ta no quarto dela.”

“Elas... brigaram?”

“A briga do século.”

Asa estremeceu.

“Ok.”

“Troca de roupa pra almoçar.”

“Já vou. Valeu, Rita!”

Ele subiu as escadas e foi direto para o quarto de Crystall. Ao abrir a porta, percebeu que ela estava trancada.

“Crystall?”, ele sussurrou. “É o Asa!” Ele sabia que não poderia falar alto, pois se Antonella soubesse que a porta estava trancada, aconteceria a Terceira Guerra Mundial.

“Vai embora!”

“Crystall, por favor, me conta o que aconteceu.”

Silêncio.

“F**k!”, xingou Asa frustrado.

O que tinha feito Crystall ficar tão inquieta? Alguma coisa tinha acontecido. Provavelmente na escola. Asa começou a pensar no dia que pareceu que tudo mudou. Não tinha sido uma mudança gradual. Parecia mais algo de um dia para um outro. Ela começou a ficar agressiva com todos. Com a mãe, com as irmãs, com ele, Rita e, pelo visto, com os colegas. Não, com os amigos. Tabatha era amiga de Crystall. O que será que havia acontecido? Quando foi que ela mudou exatamente? Na quinta passada? Não, foi antes. O dia que ela tinha dado o primeiro grande fora nele foi na quarta, então devia ter sido na própria quarta ou na terça, porque segunda, sim, segunda ela estava normal. Então... E o que Crystall tinha feito na terça e quarta. O celular de Asa tocou.

“Alô.”

“Asa?”

“Quem é?”

‘Mary. Da escola.”

Amiga da Crystall.

Como ela tinha o telefone dele?

“Oi, Mary. Tudo bem?”

“Tudo bem e você?”

“To bem também.”

Silêncio.

“Como ta a Crystall?”

“Não sei. Ela trancou a porta e não ta querendo abrir.”

“Caramba!”

“Mary, você sabe o que aconteceu pra ela ficar assim?”

“Não. Só sei que do nada ela quis sentar separado da gente, começou a dar fora em todo mundo.”

“Sabe quando isso aconteceu?”

“Não.”

Droga!

“Na terça passada ela tava estranha?”

“Não lembro.”

Mary não iria consegui-lo ajudar.

“Então não teve nenhum problema na escola? Talvez com um garoto ou uma amiga?”

“Não. Num dia ela tava bem e no outro se afastou de todo mundo.”

Então o problema não tinha acontecido na escola.

“Ok, Mary. Bem, se eu souber de alguma coisa, falo com você.”

“Ta bom. Você tem meu número?”

“Ta salvo aqui. Vou colocar o seu nome.”

“Obrigada. Um beijo. Diz pra Crystall que eu liguei. Beijo.”

“Tchau!”

Se não tinha sido na escola, então teria que ser algo dentro de casa. Mas nada tinha acontecido lá, não que ele soubesse... O mal de jogar muito videogame... Ela tinha saído naqueles dois dias? Hmmmm... Sim. Pra...

Asa abriu a boca quando se deu conta para onde ela tinha ido.   

Crystall estava agressiva com a mãe, ele, as irmãs, Rita, os amigos.

Não podia ser.

Será?

Asa foi até o quarto da irmã.

“Crystall, pelo amor de Deus, abre essa porta.”

Silêncio.

Asa começou a bater com mais força.

“Eu acho que já sei o que ta acontecendo. Abre a porta, Crystall!”

Silêncio.

Não, não. Será que era aquilo mesmo? Não podia ser! Sua...

A porta se abriu.

“O que você acha que aconteceu?”, Crystall estava com os olhos vermelhos de tanto chorar.

“Crystall, você viu alguma coisa nesses dias? Algo de errado que não deveria estar acontecendo?”

Asa não queria colocar as suspeitas dele em palavras, porque se não fosse nada daquilo, não queria que soubessem sua falta de fé naquela pessoa.

“Vi.”

O coração de Asa começou a bater rápido.

“Era a nossa mãe?”, ele perguntou com cautela.

“Nossa mãe está traindo meu pai com o Calvin!”

Tulipa

Tilipa bateu na porta da sala da diretora, esperando que ela o pedisse para entrar, entretanto nada aconteceu. Ele bateu mais uma vez e ficou sem resposta. Estranhando a situação, entrou na sala e encontrou Elizabeth de cabeça baixa.

“Querida, está tudo bem com você?”

Ela levantou a cabeça lentamente, deu um olhar cansado para o velhinho e respondeu: “Tudo bem sim. Algum problema?”

“Você não me parece bem, querida.”, ele se sentou.

“Eu não dormi direito.”

“Tem certeza?” Tilipa não queria ser entrão, mas acreditava que tinha intimidade suficiente com Elizabeth para poder insistir.

“Sim. Acho que eu to com problema no estômago. Tenho que ir ao médico ver isso.”

“É bom. Qualquer coisa, eu e o James damos uma olhada aqui na escola pra você.”

“Muito obrigada! Mas fala, qual é o problema?”

Tilipa estava explicando algumas questões relacionadas ao Financeiro da escola, quando percebeu que Elizabeth não parecia estar nada bem: “Querida, você está pálida.”, comentou, interrompendo sua explicação.

“Eu só to com uma dor de cabeça e um pouco enjoada.”

O velhinho já havia passado por essa experiência quatro vezes. Só de ver a cara da diretora, já sabia o que estava acontecendo.

“Enjoada?”

“Ti, pode tirar essa ideia da cabeça: eu não to grávida. É enjoo normal mesmo, por causa do estômago.”

Enjoo normal. Sei..., pensou Tilipa.

“Você fez o teste?”

“Eu tomo pílula. E eu não tenho facilidade de engravidar. Will e eu tentamos por três anos.”

“Não sabia disso... Mas talvez quem tenha problema seja o outro, não você.”

“Ele acabou de ter um filho.”

“Não sabia.”

“Pois é.”

“E você? Como ta?”

“Eu to bem. A gente já se divorciou faz um tempo. Já tava na hora de cada um seguir com a sua vida.”

“Lizzie, acho que você ainda assim precisa fazer um teste.”

“Tilipa, sério, não é gravidez. Eu tava menstruada na semana passada.”

“Compreendo... Então você precisa ver esse problema aí. Você não me parece bem.”

“Daqui a pouco eu vou pro médico então.”

“Quantos anos tem o filho do seu ex-marido?”

“Tem semanas.”

“Foi ele que te contou?”

“Eu vi no Facebook.”

“Você sabia que a companheira dele tava grávida?”

“Sabia já.”

“Entendi...”

“É um menino, o nome dele é Elton, o mesmo do pai do Will.”

“Ele sempre quis dar esse nome pra um filho?”

“Não sei, acho que não. Quando a gente era casado, se fosse menino, eu queria que fosse William Jr. Ridículo, não?”

“Não acho não, minha filha. Ridículo seria se fosse William II.

“Ah, isso também não.”

“E se fosse menina?”

“Não sei. Nunca chegamos num acordo. Eu sempre gostei de Maria... Gosto de nome composto também.”

“Se o pai for o Bradley, vai ter que começar com B.”

Elizabeth riu sem humor: “Tem mais alguma coisa em relação ao orçamento que eu precise saber agora? Acho que já vou ao médico.”

“Não, não. Eu te falo depois, quando você estiver melhor.” Tilipa sabia que havia exagerado nas perguntas e que, pela cara de Elizabeth, ela não tinha gostado muito do interrogatório.

“Ok então, Tilipa. Muito obrigada! Vou deixar a escola nos seus cuidados e no do James. Qualquer coisa, me liguem. Avisem aos professores que eu tive que me ausentar.”

“Tudo bem. Aviso ao Bradley que você foi ao médico?”

“Eu mando mensagem.”

“Tudo bem.”

“Ah, e mais uma coisa: fica de olho no Ansel e na Marjorie pra mim?”

“Com certeza!”

Elizabeth saiu da sala, deixando um Tilipa preocupado.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Posso contar com você?

Os alunos da turma da Cheryl decidiram se encontrar sexta-feira à noite no Bar do Santana. Alguns dos meninos, incluindo Vincent, estavam bebendo cerveja enquanto jogavam sinuca. Enquanto Hailee, Alison, Tyler, Nico, Cheryl, Nadine, João, Edward, além de alguns outros colegas da turma, estavam numa mesa, a poucos metros de distância, jogando conversa fora. Cheryl estava se sentindo um pouco tonta depois do terceiro copo de chopp. Ela apoiou a cabeça no ombro do namorado e ficou ouvindo a conversa dos colegas, sem prestar muita atenção. 

De repente, a porta do bar se abriu, revelando Ansel. Ele marchou até a mesa dos colegas, olhando fixamente para Cheryl. Os meninos da sinuca pararam de jogar e as pessoas de conversar para observar o garoto. Ansel ignorou os olhares dos curiosos e foi para perto da Geordie.

"Cheryl, preciso falar com você." Ansel falou num tom sério, ainda sem olhar para as pessoas que o encaravam.

Cheryl ergueu a cabeça do ombro do namorado, confusa.

"Comigo?" 

"Sim. Agora." Ansel batia o pé no chão impacientemente.

A britânica olhou para o Edward que estava com uma cara fechada e de novo para Ansel.

"OK." A menina apoiou a mão na mesa para se levantar, com um pouco de dificuldade, e o seguiu para fora.

"Todo mundo tá me tratando como se eu fosse uma m**** de um estuprador. Que p***! Você viu quando eu cheguei? Todo mundo me encarando? Eu não fiz nada, Cheryl! Você me conhece desde que a gente era criança. Você sabe como eu sou. Não sou um monstro. Você acha que eu faria uma coisa dessas com alguém?" Ansel andava de um lado para o outro enquanto proferia sua indignação.

Cheryl se apoiou na parede, se sentindo tonta com o vai-e-vem do amigo. 

"Responde!" Ansel gritou nervoso, se aproximando da menina e colocando uma mão na parede ao lado de seu rosto. 

"Não sei." Ansel arregalou os olhos com a hesitação da Geordie. "Acho que não." Ela respirou fundo. "Eu não tava lá."

"Eu também não estava em muitos lugares em que você foi acusada de ter feito coisas péssimas e, mesmo assim, eu fiquei do seu lado. Eu não só peguei pra mim a sua verdade, mas também defendi ela. Eu sempre fiquei do seu lado em tudo. Até em assuntos que eu nem queria ter me metido."

"Sim, eu sei."

"Agora eu preciso que você faça o mesmo por mim."

"O que você quer que eu faça?" 

"Que você fique do meu lado. Que me defenda. Que diga pra todo mundo que acredita em mim." 

"Eu dizer às pessoas que acredito em você não vai mudar a cabeça delas."

"Você subestima a sua influência."

"Você que não subestima a minha!" A menina retrucou.

Ansel olhou confuso, sem entender o que ela quis dizer.

"Olha, as pessoas te escutam e seguem o que você fala. Se você disser que acredita em mim, automaticamente as pessoas da nossa sala vão começar acreditar também. Você sabe do que eu tô falando. A sua influência querendo ou não ainda é grande. Eu quero que você use ela pra me ajudar."

"Eu não posso fazer isso."

"Por que não?" Ansel perguntou irritado.

"Eu não posso defender um..."

"O quê? Um estuprador?" Ansel socou a parede e Cheryl estremeceu. 

"Não."

"Então o quê?"

"Eu não quero me meter nisso. É sua palavra contra a dela. Eu não tava lá." Cheryl choramingou. 

"Foi consensual!"

"Ela disse que não tava em condições de dizer sim."

"Mentira! Mentira! É claro que tava! O que aconteceu é que ela deu pra mim, se arrependeu e inventou que eu forcei. Você me conhece, Cheryl. Você sabe que eu nunca faria uma coisa dessas. Não é da minha índole. Eu sou uma boa pessoa, p***! Todo mundo sempre disse isso. Agora vem essa filha da p*** me caluniar e vocês acreditam? Eu esperava mais de você." Ansel se afastou e começou a andar com a mão na cabeça. "A minha vida tá um inferno, Cheryl." Ele começou a chorar. "Parece que tudo de bom que eu fiz foi por água abaixo por causa dessa garota."

Cheryl o fitou, confusa. Ele tinha razão. Desde o dia que o conhecera, sempre foi um garoto exemplar. Era difícil acreditar que Ansel seria capaz de cometer estupro. 

"Eu não tô dizendo que eu não acredito em você. É só que... eu de fato fui... você sabe o quê... Eu não me sinto confortável em me posicionar sobre esse assunto. Quando aconteceu comigo, eu fiquei com medo do meu pai não acreditar em mim, e depois, dos policiais não acreditarem. Fiquei com medo deles acharem que, de alguma forma, eu tinha pedido pra aquilo acontecer." Ela enxugou uma lágrima que havia caído no rosto. "Eu não quero dizer que uma mulher está mentindo sobre uma coisa dessas sem realmente saber. Me desculpa, mas eu não tava lá."

"Então você acha que eu posso ter realmente estuprado alguém?"

Cheryl ficou em silêncio, pensativa. 

"Deixa pra lá. Desculpa ter te incomodado." Ansel começou a andar na direção oposta ao bar, indo embora. 

"Espera!" Cheryl gritou e andou com dificuldade até ele. "Eu acredito em você."

"A-credita?" A boca de Ansel tremia de emoção. 

"Sim."

Ansel jogou seus braços em volta do pescoço da Geordie e a abraçou fortemente. "Obrigado." Ele sussurrou em seu ouvido. 

Depois de um tempo a menina se desvencilhou do abraço. "Eu ainda não vou pegar nenhum lado publicamente." Ela disse olhando nos seus olhos. 

"Tudo bem."

"Tá todo mundo estranho com você porque o que aconteceu foi muito recente. Daqui a pouco isso vai cair no esquecimento e tudo vai voltar ao normal."

Ansel assentiu. 

"Até lá, você vai ter em mim uma amiga."

"Eu não quero te colocar numa situação desconfortável. Não precisamos sermos amigos. Até a Chloe me abandonou... Você não tem que ficar."

"Eu quero ficar." 

"Obrigado." Ansel abraçou a menina mais uma vez "Você não sabe o quanto eu sou grato."

"Não precisa agradecer." 

Ansel tirou os braços em volta da Geordie. "Eu vou indo."

"Ok."

"Obrigado mais uma vez."

"Volta com cuidado."

"Você também, se cuida."

Cheryl voltou para dentro do bar e Ansel foi para casa. 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

A mudança

Emma tinha acabado de discutir com seus pais e se trancado no quarto. Eles iriam se mudar para o Canadá por tempo indeterminado e abandoná-la de novo. Claramente seus pais não a amavam como ela os amava e isso partia o seu coração. Em um ato impulsivo, a menina disse que iria morar com Bradley e Jessica. Palavras que, quase instantaneamente, se arrependeu de ter dito, porém não iria voltar atrás.

A verdade era que por mais que amasse Bradley e Jessica, ela não gostava da vida que levavam. Era confusa, cheia de dramas e instabilidades. Além disso, Emma sentia que tinha perdido sua dinda para Mel, Theo, Levi e até Zendaya. Desde pequena, a ruiva morria de ciúmes da sua dinda com outras crianças, sempre assumindo uma posição possessiva e não deixando ninguém chegar perto. Agora parecia que a perdera para outras pessoas e a conexão que um dia tiveram, não existia mais. Por isso era mais fácil ficar com o Bradley. Apesar das suas inseguranças iniciais, o professor sempre se dividiu bem entre Brian e ela. A vida dele também era mais tranquila e com menos surpresas. Bem, antes da Elizabeth. A diretora do Cavalinho Feliz poderia vir a ser um problema. E alguma coisa a dizia que um dia ela trairia o dindo com James. 

O celular de Emma tocou e era Guilherme. 

"Oi."

"Oi. Fiquei sabendo o que aconteceu." Guilherme falou da outra linha.

"Já?" Emma perguntou surpresa.

"Seus pais falaram com os meus e acabei escutando." O menino explicou. 

"Ah."

"Como você tá?"

"Me perguntando o porquê de não ter nascido numa família normal."

"Imagino."

"Eu odeio meus pais. Eles me fazem passar por tanta coisa, ao invés de só cuidarem de mim. É óbvio que é porque eu sou adotada."

"Não é verdade. Seus pais te amam."

"Não, eles não me amam e eu nem ligo mais. Só tô p**a porque vou ter que ficar com a minha dinda."

"Então você não tá pensando em ir com eles."

"Que parte do eu odeio os meus pais você não ouviu? Quero que eles vão pra pqp e não voltem nunca mais."

"Eu tô indo pra aí." O menino informou.

"Não precisa. Você tá doente."

"Já tô melhor. E também não aguento mais ficar só em casa."

"Tá bom."

"Até daqui a pouco."

Guilherme desligou e se vestiu para ir para a casa da ruiva.

Quando chegou, o pai de Emma disse que a menina estava em seu quarto e autorizou que subisse.

Guilherme bateu na porta do quarto e esperou Emma abrir.

Os dois nem chegaram a se cumprimentar verbalmente. Emma logo colocou os braços em volta da nuca do garoto e o puxou para um abraço.

Guilherme envolveu a cintura da ex e fechou os olhos. Inevitavelmente, lembranças do tempo que estiveram juntos retomaram a mente do garoto. Era estranho que na época ele amava tanto a Emma que a ideia se um dia não tê-la era insuportável.

Depois de alguns segundos Emma se afastou para olhar o rosto de Guilherme.

"Desculpa não ter te visitado." Emma falou sem graça. 

"Não precisava. Ninguém faz visitas por labirintite."

"Mesmo assim... Você realmente tá se sentindo melhor?" Emma o fitou preocupada e passou o polegar pela sobrancelha grossa do menino. Hábito que havia criado na época do namoro e que se manifestou naquele instante como um reflexo. 

O coração de Guilherme bateu mais rápido com o gesto carinhoso da menina.

"Sim. E o foco aqui é você. Não tem como você convencer os seus pais a ficarem?" 

"Sei lá. Acho que não. E também nem quero."

"Então você vai morar com a tia Jessica?" 

"É ela ou meu dindo... Não quer me aceitar na sua casa não?" 

"Até que a gente tem um quarto vago..." Guilherme brincou e Emma deu uma gargalhada rouca. 

"Tenho certeza que seus pais iriam adorar a ideia."

"Não duvide. Eles te adoram."

"Eu também adoro eles."

"É verdade que você já vai pra casa da tia Jessica agora?" 

"É. Gui, eu tô muito magoada. Meus pais nem ligam mais em me perderem."

"Ligam sim."

"Não o suficiente."

"Vamos mudar de assunto. Você sabia que a Vânia..."

Guilherme e Emma passaram o resto da tarde conversando até os pais do menino ligarem e pedirem que voltasse para casa. Guilherme os obedeceu contra sua vontade. Emma estava tão vulnerável e tão serena que volta e meia se pegava admirando aqueles lindos olhos cor de oceano, seu sorriso fofo e as sardas que pipocavam seu rosto pálido. 

No dia seguinte, Emma apareceu com duas malas na porta da madrinha às 8h da manhã. 

Jessica olhou a menina confusa, sem saber se estava sonhando ou aquilo era real. 

"Meu amor, o que é isso?" Jessica puxou Emma para si antes de ouvir a resposta. 

"Meus pais vão se mudar." Emma respondeu ao abraço da dinda. 

"E você?" Jessica sentiu seu coração parar por um segundo, temendo a resposta da menina. 

"Eu não."

Uma onda de alívio tomou conta da advogada. 

"Vocês brigaram?" Jessica perguntou, juntando as peças do que tinha acontecido. 

Emma assentiu, em meio a lágrimas que deixavam seus olhos. "Posso morar com você?" 

"Claro que pode." Jessica segurou o rosto da menina com as duas mãos. "Como você me faz uma pergunta dessas? Essa casa é sua tanto quanto minha. Tudo o que é meu é seu." Ela secou algumas lágrimas da menina com o polegar e distribuiu beijos pelo seu rosto. "Você é mais que bem-vinda!" Depois de enchê-la de beijos, puxou a menina para outro abraço. "Eu te amo tanto, meu amor."

"Também." Emma respondeu sem graça. 

"Vou trazer suas malas pra dentro." Jessica pegou as malas da afilhada e deixou no quarto dela. Quando voltou para a sala, Emma estava sentada olhando para as mãos no colo. 

"Me conta como foi que aconteceu." Jessica pegou a mão da menina e fez ela levantar para sentar no seu colo. 

Era gritante a diferença de demonstração de afeto da mãe para a dinda. Mais uma confirmação de que sua mãe não a amava como filha legítima. Emma contou tudo o que havia acontecido nos mínimos detalhes. Jessica escutou tudo com muita atenção e acariciando sua mão o tempo todo. Era quase como os velhos tempos quando Jessica era só sua. Até Theo ou Levi começar a chorar. 

"Vou ver o que eles querem rapidinho e já volto." 

"Não. Não quero que você vá." Emma deitou a cabeça no ombro da dinda, marcando o território, assim como na infância. 

"A gente vai juntas." Emma fez que não com a cabeça. "Não? Tá bom. Vou pedir pra Vera." Jessica virou o rosto para não gritar no ouvido da filha. "VERA. VÊ PRA MIM OS BEBÊS." 

"TÔ INDO."

"TEM MAMADEIRA PRONTA NA GELADEIRA. SÓ AQUECER."

"TÁ BOM."

"Não quer ver seus irmãos?" Jessica voltou a sua atenção à afilhada. 

"Agora não."

"Tudo bem. Eu sei que vou soar egoísta, mas tô muito feliz de ter você comigo. Minha princesinha." Ela beijou sua cabeça. 

"Eu não entendo porque eles não me devolveram pra você e pro meu dindo já que não faziam questão de me terem."

"Eles não só faziam questão, como ainda fazem. Mas a ligação de pais biológicos é diferente. É muito mais profunda. Eu olho pra você e vejo uma parte minha. E quando a gente não tá juntas, eu não me sinto completa. Tem sempre uma parte minha faltando quando você não tá."

"E pais adotivos não conseguem amar assim?" 

"Não sei. Acho que conseguem amar bastante, mas não exatamente assim."

"E agora que você tem outros filhos?" 

"Nada mudou. Amor de mãe não se divide, se multiplica. Eu sei que é clichê, mas é a verdade. Cada um de vocês são uma parte de mim que não consigo viver sem."

"Entendi."

"Você dormiu essa noite? Tá parecendo cansada."

"Não muito." Emma admitiu.

"Então deita lá na minha cama um pouquinho pra descansar."

"Não quero."

"Vai lá. Eu vou fazer um cházinho pra você e já te acompanho."

"Tá bom." Emma levantou e foi para o quarto da dinda.